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De volta aos Bailes Mandados em Portugal (NOVO)

Associação PédeXumbo (Atualizado em: 25 Março, 2021 )

De volta aos Bailes Mandados em Portugal é o novo projeto da PédeXumbo e é um dos dez vencedores da 4ª edição do programa “Tradições”, promovido pela EDP.

Programa Tradições é uma iniciativa de financiamento e acompanhamento de projetos que tenham como objetivo valorizar tradições regionais ou locais em Portugal. Assim, no passado dia 10 de março foram divulgados os vencedores desta iniciativa, numa gala que decorreu online, onde esteve presente a Marta Guerreiro para falar deste novo projeto da PédeXumbo. De volta aos Bailes Mandados em Portugal surge com o objetivo de promover momentos de partilha entre bailadores e mandadores de diferentes danças mandadas, em três regiões de Portugal (a norte, centro e sul do país), no sentido de resgatar esta prática informal em bailes e promover a sua valorização. Este projeto visa ainda a valorização do papel dos mandadores e a importância de formar novos mandadores nas diferentes comunidades.

De volta aos Bailes Mandados em Portugal será desenvolvido ao longo de cerca de dois anos e terá uma dimensão teórica para a criação de conteúdos, com a coordenação cientifica de Sophie Coquelin, e uma dimensão prática com as formadores Ana Silvestre, Marisa Barroso, Marta Guerreiro e Mercedes Prieto.

 

Entrevista com Sophie Coquelin

Coordenadora Científica do Projeto

Primeiro que tudo, e porque muitos não têm informação sobre esta prática, o que são Bailes Mandados?

Existe uma dança chamada “baile mandado” no Algarve, mas para este projeto, usamos o termo como categoria para cobrir diferentes danças que existem um pouco por todo o mundo. Têm em comum o facto de haver um mandador que anuncia figuras coreográficas a executar. Este mandador pode, por vezes, ser bailador ao mesmo tempo, ou ficar ao lado dos tocadores.

A figura do mandador ou marcador pode ser associada à contredanse, um género coreográfico que se difundiu a partir das cortes francesa e inglesa para todo o mundo, sob influência ocidental. Apesar de estar inicialmente ligada às elites, a sua difusão abrangeu todas as classes sociais, ao longo dos séculos XVIII e XIX. O mandador relembra a sucessão de figuras que constituem danças “complicadas” ou cria, no momento, uma nova sucessão de figuras, inédita. Isto corresponde à descrição do cotillon, um tipo de contredanse.

Há muitas variações dentro desta categoria de baile mandado, quer seja ao nível da função do mandador, quer seja ao nível da dança, pois a figura do mandador também aparece nas danças de par, tal como na rueda de casino em Cuba.

Em todos os casos, estamos a falar de danças coletivas, uma vez que o sucesso da dança depende do mandador e dos bailadores. Estes devem saber que movimentos são associados às figuras mandadas. Em alguns casos, os mandos explicitam literalmente o que é para fazer, noutros, não.

Qual a particularidade do baile mandado em relação a outras danças tradicionais em Portugal?

Temos referências de bailes mandados de norte a sul do país, inclusive nos arquipélagos. Em alguns casos, a prática manteve-se viva até hoje, em contexto bailatório ou ritual. Isso, já por si, é incrível, pois geralmente ouve-se dizer que as tradições se perderam. Noutros casos, apenas existem no repertório de grupos folclóricos. Ainda assim, a adaptação das danças para palco pode ter implicado o desaparecimento do mandador, em favor da criação de uma sequência fixa de figuras, decoradas pelos dançarinos.

Além disso, a figura do mandador é bastante fascinante, traz algum prestígio a quem manda, porque não é qualquer um que é capaz de o ser. É preciso ter várias valências, tais como um domínio correto da dança, aptidões musicais e uma boa projeção da voz! Podemos comparar o mandador a um cantor ao desafio, porque deve saber adaptar-se ao momento e respeitar as regras que enquadram a prática. 

Tanto o contexto de execução como a prática em si podem ajudar-nos a entender a razão pela qual vários bailes mandados se mantiveram vivos até hoje. A atenção que os bailadores demonstram para o momento presente e a vivacidade das interações despoletam a emoção, a celebração do estar em grupo. Um baile mandado ilustra uma certa coesão social e ao mesmo tempo potencia a expressão individual. Talvez não seja por acaso que mandar e cantar à desgarrada eram práticas que aconteciam em simultâneo antigamente. Estas práticas materializavam a expressão da voz do povo, durante as quais era possível relatar momentos que marcaram a história local.

“De volta aos Bailes Mandados em Portugal” é o novo projeto da PédeXumbo, apoiado pela iniciativa “Tradições”, promovida pela EDP. Fala-nos um bocadinho sobre o que será este projeto.

Primeiro é preciso enquadrar este projeto no trabalho de terreno que a PédeXumbo faz há anos. Vários dos seus colaboradores procuraram práticas expressivas ainda vivas no seio das comunidades. As recolhas efetuadas de norte a sul de Portugal foram diretamente incorporadas por professores de dança e músicos para serem dadas a conhecer noutros contextos performativos. Tudo isto tem implicado um trabalho com as comunidades e um diálogo com gente de fora. Acreditamos que só através do diálogo, do encontro com o outro, é que se mantêm vivas as tradições. O próprio processo de folclorização desenvolveu-se quando os camponeses se cruzaram com os urbanos e os estrangeiros.

Este novo projeto procura pôr em diálogo diferentes comunidades, para aprenderem práticas uns dos outros e descobrir o contexto no qual as práticas são incorporadas. Uns poderão mostrar como revitalizaram o seu baile mandado, outros poderão encontrar inspiração para fazer o mesmo no seu lugar/concelho.
Com a febre da patrimonialização que se espalhou em Portugal, depois da ratificação da Convenção da UNESCO para a salvaguarda do PCI (Património Cultural Imaterial), nota-se que há uma vontade maior em praticar danças tradicionais fora do contexto folclórico. Podemos citar o exemplo dos encontros aos domingos em Arcos de Valdevez, ou ainda os encontros de minhotos que vivem na Grande Lisboa, nos parques da cidade. Este projeto visa facilitar esta reapropriação, pôr as pessoas a bailar no terreiro e identificar as condições para que seja efetivo.

Nos anos 1970, Pierre Sanchis já observava como os altifalantes nas romarias davam cabo da expressão espontânea do povo, que parou de cantar, tocar e bailar. Da mesma forma, a eletrificação dos instrumentos musicais tornou a voz do mandador inaudível. É preciso garantir boas condições acústicas para a realização de um baile mandado.

Este é um projeto de âmbito nacional e que vai chegar a vários pontos do país. Onde exatamente? E qual a expressão dos Bailes Mandados nestes territórios escolhidos?

O programa da EDP centra-se em concelhos onde uma barragem da empresa foi construída, por isso, escolhemos quatro concelhos onde sabemos que existem/existiram bailes mandados: no Norte, em Ponta da Barca (Vira e Chula Mandada); no Centro, na Lousã (Fado mandado); no Sul, em Reguengos de Monsaraz (Contradança no Baile da Pinha) e em Sines (Valsa mandada).

A nossa proposta é trabalhar nestes 4 concelhos e envolver quem queira participar. Primeiro, faz-se uma formação para conhecer vários tipos de bailes mandados, nestes quatro concelhos. Numa segunda fase, programa-se um encontro em Reguengos para que estas quatro comunidades possam dialogar através da dança. Além de pôr as pessoas a bailar, o objetivo é também formar novos mandadores. Quem já sabe bailar também poderá aprender algo novo.

Há já repertório escolhido para ser trabalhado?

Em 2007, a PédeXumbo iniciou um trabalho à volta das valsas mandadas no litoral alentejano. Limitado hoje à serra de Grândola, que se divide entre Grândola e Santiago do Cacém, é muito provável que esta prática existisse num território mais abrangente, no passado. Professor de educação física reformado, Manuel Araújo é um grande dinamizador da valsa mandada localmente. Contou-nos que já na sua juventude, era apenas executada por uma parte da população. Em dias de festa em Melides, havia dois lugares onde bailar, os moradores da vila ficavam separados dos habitantes da serra. Eram estes últimos que mantinham viva a valsa mandada.

Em Montemor-o-Novo, existe uma valsa marcada, que é também uma valsa de 2 tempos mas não há mandador. Como marcar e mandar são sinónimos, pode-se imaginar que no passado se tratava da mesma dança.

Em Alcácer do Sal, Michel Giacometti gravou várias músicas que correspondem à valsa mandada. Os nomes dados às músicas são Valsa de dois tempos e Sagorra. (O Ladrão do Sado, Vol. 11)

No youtube há um vídeo de um baile em Sines que mostra um conjunto a tocar uma valsa mandada e pares soltos a dançar, sem nenhum mandador.

Há uns anos atrás, Tiago Pereira da MPAGDP ligou à PédeXumbo depois de ter ouvido o testemunho de uma pessoa em Almeida que falava de uma dança cuja descrição se aproximava da valsa mandada. Almeida! Fica muito longe do litoral alentejano!

A contradança, executada nos bailes da Pinha, existe nos arredores de Évora e de Reguengos de Monsaraz. Aqui a prática coreográfica manteve-se, mas a música foi-se atualizando de acordo com os gostos atuais. Tem uma conotação ritual, pois esta dança mostra os jovens adultos à comunidade, como se fosse um rito de passagem. Talvez, no passado, esta dança não tenha tido esta conotação ritual, mas a meu ver, é por tê-la que a prática se manteve até aos dias de hoje. Este exemplo mostra como a tradição é dinâmica e, sobretudo, como tem que fazer sentido às comunidades nos dias de hoje. Actualmente o mandador foi substituído pelo ensaiador, e já não participa ativamente na performance no dia do baile da Pinha.

No Minho, temos conhecimento dos contextos durante os quais podemos ver os viras serem mandados: as festas de verão! Quem lá vai só pode ficar de boca aberta com os ajuntamentos espontâneos de bailadores, castanholas e concertinas! A dança está muito presente nesta região, porque existe um número elevado de grupos folclóricos. Existe também uma emigração muito forte. Com este projeto, talvez entendamos melhor este fenómeno. À primeira vista, parece que o desenvolvimento da prática folclórica e a presença dos emigrantes naquela altura do ano, são elementos chave para compreender o porquê destes ajuntamentos.

Por fim, o fado mandado. Sobre este último temos poucos dados, fora os vídeos de grupos folclóricos online. Há uns anos atrás, lembro-me de presenciar uma tentativa de reavivar o fado mandado no Paúl (Fundão). Formou-se uma roda, onde um acordeão estava a tocar e o músico também estava a mandar. Algo simples e inclusivo! O fado mandado encontra-se numa zona muito extensa, no centro de Portugal. Aí, temos o livro do Rui Vieira Nery para nos ajudar a entender como o fado se propagou no território e a ligação entre este, a desgarrada e o ato de mandar. Para ilustrar esta associação, temos o exemplo de uma dança à desgarrada incluída no repertório do grupo folclórico de Ílhavo. O grupo criou uma coreografia fixa a partir de diferentes figuras e o mandador desapareceu de cena.

 
Numa primeira fase, será necessário ir à descoberta dos ainda mandadores em Portugal…?

A PédeXumbo já juntou muito material ao longo dos anos e o recurso à internet facilita a compreensão do que acontece nos concelhos. Em paralelo, outras entidades fazem um trabalho similar, como as recolhas feitas pelo NEFUP, na zona do Douro Verde. Neste projeto haverá uma componente de trabalho no terreno de investigação, que é sempre necessária, mas a prioridade é outra: potenciar o surgimento de novos mandadores. Para isso, é preciso produzir conteúdos, como a PédeXumbo faz com a coletânea de brochuras “Para Conhecer e Fazer” ou com a edição de livros e filmes. Interessa documentar as danças mandadas, mas também dar ferramentas para se ser mandador.

“De volta aos Bailes Mandados em Portugal” terá uma dimensão teórica para a criação de conteúdos, cuja direção científica será feita por ti, e uma dimensão prática. Como será feita a ponte entre ambas e com quem vamos poder contar para o desenvolvimento deste projeto?

Eu estou a finalizar um doutoramento que junta antropologia, estudos em dança e artes performativas. O meu objeto de estudo é o baile de chamarritas, um baile mandado muito vivo nas ilhas do Triângulo (Faial, Pico e São Jorge), que pertencem ao grupo central dos Açores. Por outro lado, trabalhei na PédeXumbo vários anos e desta experiência conservo a sua dimensão política, no sentido de ter um papel ativo na sociedade civil. Ou seja, a minha preocupação atualmente é como disseminar dados científicos para quem queira saber mais, sem passar por ler artigos em revistas científicas ou assistir a conferências. É um dever garantir que a ciência tenha repercussão na população em geral. Daí o teórico ter que associar-se ao prático. Para garantir isso, não estou sozinha.

O projeto precisa de formadores de norte a sul para ser implementado! Mercedes Prieto, Marisa Barroso e Ana Silvestre são formadoras muito experientes em dança tradicional, duas delas possuem um doutoramento no domínio da educação e da dança/desporto. Também costumam animar bailes, o que as aproxima da função de mandador. Elas organizam um conjunto de pessoas para criar um momento de convívio. 

Para além da distinção teórico-prática temos de voltar à questão política. Um dos objetivos do projeto é dar visibilidade a outra forma de considerar a dança tradicional sem passar apenas pela apresentação do grupo folclórico. Este formato em si não permite manter vivas as práticas expressivas. É preciso de uma prática informal ou ritual em paralelo, ou seja, um contexto para que as danças sejam incorporadas. Uma dança só existe quando é dançada! Para garantir isso, tem que fazer sentido para as pessoas, no seu dia-a-dia. 

Neste projeto, escolhemos propositadamente uma prática comum a todas as regiões de Portugal. Com efeito, parece ser o momento de refletir sobre a regionalização das danças tradicionais, estabelecida durante o Estado Novo. Há dados para confrontar, criticar ou confirmar. É preciso questionar a forma como a própria noção de tradição foi construída ao longo do século XX, em Portugal, e como ou porque é que o folclore se tornou um sinónimo de tradição.

O projeto tem a duração de cerca de 2 anos e estende-se até 2022, com várias fases. Haverá momentos abertos ao público em geral?

O encontro em Reguengos de Monsaraz pretende ser aberto ao público em geral. Talvez através da Plataforma ZOOM, possamos propor uma aula aberta a quem não vive nos concelhos citados. Ainda não fixamos todas as atividades que serão realizadas. 

Também estamos a planear um momento público em cada concelho abrangido pelo projeto, e esperamos que seja aberto ao público geral. 

Que materiais serão produzidos e de que forma serão disponibilizados para consulta?

Ainda estamos na fase de reflexão, mas a ideia é por tudo online para ter o maior acesso possível, à semelhança do que a PédeXumbo tem feito com outras publicações.

Com o primeiro volume dos Cadernos de Dança do Alentejo, temos materiais para a valsa mandada, inclusive vídeos acessíveis na plataforma da Memória Média.

Haverá, em breve, uma brochura sobre a chamarrita do Pico, como já houve uma sobre a valsa mandada. No site da Dança Portuguesa a Gostar Dela Própria, existem alguns registos vídeos de bailes mandados. 

Enquanto a pandemia não permitir ajuntamentos, pretende-se criar conteúdos em vídeo para ensinar a mandar, dando informação simples para iniciantes com figuras, música de suporte e técnicas para articular a música e a dança. 

Também é preciso material escrito para dar informação sobre os contextos nos quais as práticas são vividas. Procura-se marcar entrevistas com mandadores e animadores de bailes. Está planeado um manual de boas práticas para organizar um baile mandado.

Que impacto se pretende que tenha este projeto no futuro dos bailes mandados?

A ideia é capacitar pessoas singulares ou membros de associações para que revitalizem as suas práticas em contexto informal, como o baile. E garantir que o baile mandado possa voltar a ser executado, em contexto bailatório ou ritual. O futuro dos bailes mandados é voltar aos terreiros! E garantir que se ouve sempre mais a voz do povo, contrariando a monopolização imposta pelos seus representantes (políticos ou de outros tipos).

Os grupos folclóricos podem ser bons parceiros neste projeto. Entendemos que há um trabalho a desenvolver durante os ensaios. Como um mandador não repete as mesmas sequências de movimentos, isso permite trabalhar a atenção dos dançarinos. Altera completamente a qualidade dos seus movimentos, melhora a escuta da música, etc… O imprevisto não pode ser considerado como sinónimo de engano ou de perigo. O risco vale a adrenalina que se gera para conseguir executar o que o mandador anuncia.

Uma vez bailei com um grupo folclórico que tinha participado num projeto da PédeXumbo. Um grupo de baile folk tocava e os dançarinos daquele grupo bailavam misturados com o público. Como era uma música tirada do seu repertório, os elementos do grupo estavam à vontade. O que não sabiam, e eu também não, é que o grupo de baile tinha arranjado a música e alterado a sua estrutura. Tinha acrescentado mais uma dupla cantiga/refrão e dobrado o refrão no fim. Depois do número habitual de repetições cantiga/refrão, a maioria dos membros do grupo pararam de bailar e ajoelharam-se, como costumam fazer no fim das suas apresentações. Como a música não parou, levantaram-se e voltaram a dançar. O meu par, que era membro do grupo, não parecia o mesmo depois daquele momento. Já não era o bailador virtuoso, mas sim o bailador atento, que se deixava guiar pela música. Claro que a parte final foi a que mais gostei! Por excelente dançarino que ele fosse, só na parte final fomos verdadeiramente um par a bailar ao som da música, escutando-a com todo o nosso corpo.

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