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De volta aos Bailes Mandados em Portugal (NOVO)

Associação PédeXumbo (Atualizado em: 25 Março, 2021 )

De volta aos Bailes Mandados em Portugal é o novo projeto da PédeXumbo e é um dos dez vencedores da 4ª edição do programa “Tradições”, promovido pela EDP.

Programa Tradições é uma iniciativa de financiamento e acompanhamento de projetos que tenham como objetivo valorizar tradições regionais ou locais em Portugal. Assim, no passado dia 10 de março foram divulgados os vencedores desta iniciativa, numa gala que decorreu online, onde esteve presente a Marta Guerreiro para falar deste novo projeto da PédeXumbo. De volta aos Bailes Mandados em Portugal surge com o objetivo de promover momentos de partilha entre bailadores e mandadores de diferentes danças mandadas, em três regiões de Portugal (a norte, centro e sul do país), no sentido de resgatar esta prática informal em bailes e promover a sua valorização. Este projeto visa ainda a valorização do papel dos mandadores e a importância de formar novos mandadores nas diferentes comunidades.

De volta aos Bailes Mandados em Portugal será desenvolvido ao longo de cerca de dois anos e terá uma dimensão teórica para a criação de conteúdos, com a coordenação cientifica de Sophie Coquelin, e uma dimensão prática com as formadores Ana Silvestre, Marisa Barroso, Marta Guerreiro e Mercedes Prieto

MARTA GUERREIRO

responsável executiva da entidade promotora e gestora do projeto

Licenciada em Animação Sociocultural pela Escola Superior de Educação de Beja (2005), Marta Guerreiro dedicou-se inicialmente à área social, desenvolvendo e dinamizando projectos em contextos sociais desfavorecidos, recorrendo sempre à dança como ferramenta de trabalho. A partir de 2008 dedicou-se à área cultural como produtora e programadora na associação PédeXumbo (Festivais Entrudanças, Tocar de Ouvido, Planície Mediterrânica). Em simultâneo cria e integra projectos artísticos com comunidades locais (idosos e crianças) e tem ainda desenvolvido competências enquanto monitora de danças tradicionais. Desde 2015, coordena a associação e gere projectos, tendo sempre um papel activo na implementação e dinamização das actividades nos diferentes territórios de intervenção. O último projecto criado por Marta centra-se na tradição dos mastros e nas suas práticas expressivas, no concelho de Odemira. Neste projecto, como em outros que tem desenvolvido ao longo do seu percurso profissional, integra-o desde a fase de pensamento/criação à de avaliação. Faz parte do seu perfil envolver-se junto das comunidades locais, onde ainda se praticam as acções, e por tal valorizar as pessoas e as tradições de uma forma muito humana. Esta integração a 100% nos projectos permite-lhe gerir orçamentos e recursos humanos de uma forma complementar para o bom sucesso dos projectos. Na função de coordenadora da associação, gere uma equipa de quatro funcionários a tempo inteiro, assim como planeia a contratação de serviços externos para os diversos projectos que integram os planos de acção anuais. Participa na valorização do voluntariado (mais de 200 pessoas no Festival Andanças) e é quem estabelece a comunicação entre a Direcção da associação, colaboradores e parceiros. Nos últimos 5 anos, tem gerido um orçamento médio de 400.000 euros; realizado candidaturas a apoios nacionais e europeus e representa a associação em encontros e seminários dedicados ao âmbito cultural nacional e internacional, a titúlo de exemplo “Culturminho, o 1º Fórum da Cultura do Rio Minho Transfronteiriço“. No intuito de se qualificar na área do património cultural imaterial, finalizou ainda uma pós-graduação, ministrada pela Universidade Lusófona (2015).
Na área da sua formação como monitora de dança/movimento frequentou vários cursos, tendo tirado a Formação de Formadores de Dança, com a professora/bailarina Mercedes Prieto. É pós-graduada em Contextos Educativos pela Faculdade de Motricidade Humana com a coordenação da Professora Doutora Elisabete Monteiro e Margarida Moura. Fez ainda a formação O Corpo que Pensa, no Espaço do Tempo, orientada pela Terapeuta e Bailarina Pia Kraemer M.A. Marta Guerreiro procura implementar um modelo de gestão integrativo que concilie a gestão financeira à de recursos humanos, com a capacidade de um pensamento estratégico e em simultâneo artístico.

SOPHIE COQUELIN

coordenação científica

Licenciada em Etnomusicologia pela Universidade Paris-X-Nanterre (França, 2004) e Mestre em “Ethnologie des Arts Vivants” pela Universidade Nice Sofia-Antipolis (França, 2013), Sophie Coquelin investiga os processos de revitalização da dança de raiz tradicional em Portugal. Graças a uma bolsa de doutoramento obtida pela reitoria da Universidade de Lisboa, iniciou em 2017 um doutoramento em Motricidade Humana, especialidade de Dança, na Faculdade de Motricidade Humana. Com esta bolsa pretende aprofundar o entrosamento entre a Antropologia e a Arte, abordando a questão da multimodalidade na “dança mandada”. Na interface entre o mundo académico e sociedade civil, a sua experiência profissional decorreu na Associação PédeXumbo enquanto produtora cultural (2006-2011; 2012-2014), no Institut Occitan d’Aquitaine como assistente do etnomusicólogo Jean-Jacques Casterêt (2011-2012). Entre 2014 e 2017, teve uma bolsa de investigação para Mestre no centro de investigação INET-md, polo FMH-UL. Participou em iniciativas de registos etnográficos no Alentejo, no Algarve e nos Açores; e na organização de arquivos sonoros e visuais (bases de dados Ibn Battuta de La Maison des Cultures du Monde; Sondaqui do Institut Occitan d´Aquitaine; A Dança Portuguesa a Gostar Dela Própria de Tiago Pereira e PédeXumbo; Terpsicore do INET-MD). Foi consultora em Etnomusicologia para o filme Sinfonia Imaterial de Tiago Pereira, editado pela Fundação INATEL, e consultora em Antropologia para a criação Fica no Singelo da Cia de dança Clara Andermatt. 

MERCEDES PRIETO

formadora


PhD em Ciências da Educação pela Universidade de Évora. Licenciada em Dança pela Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa e em Química pela Universidade de Santiago de Compostela. Formadora certificada pelo CCPFC na área das expressões (C05 Dança). Integra a equipa de especialistas do Programa de educação Estética e Artística do Ministério de Educação no âmbito da formação de professores. Também leciona diferentes formações noutras instituições como Câmaras Municipais e associações, Sindicato dos professores do Sul, CEFORE(Espanha) ou a JOBRA. Trabalhou na escola Superior de Educação de Beja como professora de dança formando animadores socioculturais e professores de educação infantil e primeiro ciclo. É animadora artística no projeto MUS-E para o qual deu aulas a crianças do primeiro ciclo e jardim de infância. É fundadora e coordenadora pedagógica na “Associação PédeXumbo”, associação para a defesa e divulgação da música e dança tradicional. Co-autora do projeto MatDance, para o ensino e aprendizagem da Matemática e da Dança. Co-Autora das publicações de dança: Zampadanças, Pezinhos de lã e Entroidanzas. Coreógrafa e intérprete na peça “Olladas da danza” criada para o Museo do Pobo Galego. Bailarina nos projectos de dança GS21 e Bruma. Mandadora de bailes em projetos de música folk como Monte Lunai, Pesdelán e Obal; no Baile dos Corpos Extraordinários, Baile dos Gordos de Diana Regal e atualmente no baile do Zampadanças e Baile histórias da Associação PédeXumbo assim como no baile de Fica no Singelo da Cia Clara Andermatt.

ANA SILVESTRE

formadora


Psicóloga e Professora de Danças do Mundo com vasta experiência no trabalho de movimento com diferentes faixas etárias. Ao longo do seu percurso tem integrado projectos sempre ligados às expressões artísticas, desde o pré-escolar, ensino básico (trabalho pedagógico com comunidades vulneráveis), até à idade adulta. Como Psicóloga trabalhou nos últimos dois anos na área da Intervenção em Crise, com crianças e jovens em contexto de Violência Doméstica em Casa Abrigo. É Técnica de Apoio à Vítima, tem formação em Igualdade de Género, e é Colaboradora Assistente na Universidade de Évora com a disciplina de Psicologia e Corporeidade.
Co-criadora em projetos como o Baile das Histórias (uma co-produção Casa das Histórias Paula Rego e PédeXumbo); Bail`A Rir, Era Uma tela em Branco e Mandadora de baile no grupo Folk Aqui Há Baile. Integra o elenco da ACCCA (Companhia Clara Andermatt) no espectáculo Fica no Singelo como Formadora e Mandadora de Danças Tradicionais Portuguesas. Desenvolveu Projecto Inclusão em Movimento, com pessoas portadoras de deficiência desenvolvido pela C.M.E. Colabora com a Associação Pédexumbo desde 2006, como monitora de Danças Tradicionais do Mundo, como dinamizadora de oficinas e formação de formadores na área das Danças Tradicionais. Desenvolveu trabalho como Artista MUSE-pe (projecto da Fundação Menuhin e Projecto Escolhas), com a actividade artística Dança e Movimento com grupos do pré-escolar e ensino básico.

MARISA BARROSO

formadora


Professora de dança na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Instituto Politécnico de Leiria, onde tem investigado sobre danças tradicionais e populares, considerando-as portais de empatia e poderosos instrumentos de inclusão social. Lidera o projeto “ALL DANCE” , no qual promove a atividade física e a dança como veículo de partilha de culturas e valorização da diferença. Acredita que a dança tem o poder de fazer rodar um novo mundo. Atualmente está a desenvolver um projeto de Salvaguarda das Danças Portuguesas com a Federação de Folclores Português , tendo iniciado com um programa piloto de formação técnica de dança no concelho de Porto de Mós do distrito de Leiria.

O Fado Mandado na Lousã
Fado e Dança Social em Portugal.

Hoje parece bastante antinómico associar o fado à dança. De facto, o fado é geralmente considerado como uma prática musical, vocal e instrumental, mas sem estrutura rítmica marcada. No entanto, o fado pode ser dançado e foi o que aconteceu no Brasil, no século XIX. As primeiras menções da palavra fado enquanto género musical situam-se naquele país e associa a música à dança. Nas referências encontradas em Portugal continental posteriormente, também existe alguma ligação.
A palavra fado acaba por cobrir vários tipos de práticas expressivas, que hoje coexistem, no seio dos Grupos folclóricos, nas Casas de Fado, durante bailes ou cantorias ao desafio. Se existe alguma ligação histórica entre elas? Não sabemos ao certo. Hoje preocupamo-nos muito com a forma como nomeamos e identificamos tal ou tal prática / todas as práticas. Mas talvez os antepassados não tinham o mesmo fervor em distinguir práticas e criar categorias.
Aqui também não será o lugar para debater sobre a origem do fado. Vários historiadores já o fizeram e cada um de nós terá a sua preferência. Optamos aqui pelo texto introdutório da candidatura do Fado de Lisboa à lista da UNESCO, para o Património Cultural Imaterial. E neste acaba-se por conciliar diferentes versões:
“[O Fado] constitui uma síntese multicultural dos bailes cantados afro-brasileiros, de géneros tradicionais de música e dança locais, de tradições musicais das zonas rurais do país trazidas para a cidade pelas sucessivas vagas de imigrantes, e de correntes de canções urbanas cosmopolitas do início do século XIX.”

 

Vamos agora nos concentrar nas práticas do fado executadas longe dos palcos da world music ou das Casas de Fado. Primeiro, vamos para os Açores!

DOIS FADOS “CASTIÇOS”: FADO MENOR E FADO CORRIDO

Em 1956, o etnomusicólogo francês Gilbert Rouget gravou vários fados na Ilha do Faial, cantados por José Pacheco, baleeiro de origem micaelense, que se companhava da guitarra portuguesa ou do bandolim. Segundo um tocador picoense de renome, Manuel Canarinho, cantava-se muito o fado maior e o fado menor nas ilhas do triângulo! Estes dois distinguem-se consoante o uso na música do modo maior ou o modo menor. De resto, as letras eram ora improvisadas no momento, ora decoradas. Podiam relatar momentos marcantes da história local, tal como este fado menor que conta a história da morte de Zé Toninho durante a caça à baleia. Rouget gravou outro fado menor com o José Pacheco. Nesta versão com quadras improvisadas, este saúda o etnomusicólogo e deseja-lhe um bom regresso à França.

Hoje em dia há um fado que ainda se baila! Na ilha de São Jorge, os bailes regionais são compostos por chamarritas e por bailes de roda: saudade, tirana (…) e o fado menor! Tal com os outros bailes de roda, este fado é mandado por um dos tocadores que se encontra na pista de dança e as quadras cantadas surgem pelas vozes dos bailadores.

O fado menor não é o único que pode ser dançado, o fado corrido também o é. O balho furado em São Miguel é associado ao fado corrido porque possui o mesmo padrão de acompanhamento. (Gaipo, A.& Brito da Cruz, C. in Enciclopédia da Música Portuguesa no Século XX, 2009.) e além disso é mandado, ou seja, um dos tocadores de viola anuncia as figuras coreográficas a executar. No balho furado pode também haver lugar de despique entre cantadores. Esta ligação entre o fado e a desgarrada não se reduz aos Açores, também surge em Portugal continental, em particular no Norte e no Centro. Deixamos aqui uma linda versão instrumental da autoria do Conjunto de Guitarras de Raúl Nery.

A situação que encontramos nos Açores é bastante distinta das referências temporais dadas pelo Rui Nery, no que toca ao fado em Lisboa. O musicólogo afirma que a associação deste à dança desaparece progressivamente depois de 1850. Além disso, assume que a fixação das letras e da melodia se torna predominante nos fados cantados a partir dos anos 1920-30. Duas regiões, duas dinâmicas diferentes, o que nos leva a supor que a dinâmica seja diferente nas outras regiões de Portugal.

O FADO BATIDO

Além do fado menor e do fado corrido Nery introduz outro tipo de prática com componente coreografada associada aos fados executados nas tabernas lisboetas, em meados do século XIX: o fado batido. Trata-se de uma performance ritmada “por batimentos dos calcanhares no chão e por movimentos ondulantes dos quadris” (Nery, 2012, p.91-92), fazendo lembrar o sapateado que é geralmente associado ao fandango. Também cita Pinto de Carvalho que descreve o fado batido na viragem para o século XX. “Bater o fado é uma dança ou meneio particular em que entram duas pessoas ou três: uma que apara e que deve estar quieta e o mais firme possível, e a outra que bate, dando regularmente pancadas com a parte inferior das coxas nas coxas das pernas do que apara, e meneando-se com requebros obscenos”. (Nery, 2012, p.92, citando Carvalho, 1903, p. 276). Neste caso, faria mais lembrar cenas de tauromaquia, alias, é o que sugere a caricatura de Bordalo Pinheiro “O fado da política”, publicada a 5 de abril 1883 no jornal O António Maria.

O que temos hoje em Portugal continental?

Olhando para o repertório dos grupos folclóricos, encontramos tanto a versão sapateada, como a versão toureada do fado batido. Muitas destas versões são adaptações cénicas,e no caso desta versão toureada trata-se de uma roda de homens com braços erguidos e não de dois ou três elementos como descreve Pinto de Carvalho. Sem conhecer o contexto no qual este outro fado batido foi filmado, encontramos no Youtube um vídeo que reproduz esta luta entre homens num café.

Os instrumentos usados para tocar o fado batido não abrangem apenas guitarras e acordeão/concertina, encontramos versões tocadas ao violino, à flauta e à gaita de foles.

NOMEAR E CATEGORIZAR: UMA QUESTÃO DE DISTINGUIR O QUE?

Quer seja o fado batido como o fado mandado, todos os fados acompanhados por dança possuem o mesmo padrão rítmico, o do fado corrido! Ao nível do passo-base, pode ser caracterizado como a sucessão de três passos/apoios e uma elevação do calcanhar/salto, prefigurando uma estrutura binaria de tipo 2/4. Mas existem bastante variações, tanto ao nível coreográfico como musical! Nesta pesquisa conseguiu-se encontrar uma versão do fado batido com duplo padrão rítmico: o do fado corrido e o da chula.

Com todos os exemplos encontrados e aqui apresentados consegue-se abranger a maioria do território português, à exceção do Alentejo e do Algarve (Mas será o Youtube representativo da realidade?). No que toca ao Minho a versão cantada à desgarrada ainda é bastante vivida hoje, e a versão dançada do fado nem tanto. Como chegar a esta generalização? Partindo do princípio que existem várias formas de nomear o mesmo: fado corrido, fado batido, fado velho, fado passado e batido, fado beirão, fado serrano, fado mandado, e fado de específicos de autores, vilas ou cidades, como por exemplo “fado de Montemuro” ou“fado de Ze Maria”. A lista é longa e nem se está a contar com os exemplos presentes no terceiro disco do livro “A Origem do Fado” de Sardinha, que gravou fados corridos, alguns com nomes indicando outras danças, tais como checote, chula ou ainda chotiça. Este autor justifica isso assumindo algum parentesco entre a chula, o fado e até o corridinho. Também explica que dançar fado seria uma expressão genérica para um número variado de danças com par agarrado.

Afinal, parece que nomear permite pôr em destaque uma das valências do fado: o seu carácter plural: bailado, mandado, batido (sapateado/toureado), cantado e tocado, cantado à desgarrada e/ou tocado em modo menor. Nada é exclusivo no fado, sendo este muito plural. Com efeito, é possível cantar à desgarrada num fado em modo menor, tal como é possível encontrar um fado mandado, acompanhado com canto à desgarrada. Pode se bailar um fado corrido sem haver mandador e este nem ser sapateado ou toureado. Neste caso, talvez seja importante referir que acontece sobretudo em contexto folclórico, em que o mandador foi substituído por uma coreografia fixa, para facilitar a performance cénica. A desgarrada executada pelo NEFUP, inspirada pelo repertório do Grupo Folclórico de Ílhavo, é um bom exemplo disso.

Enfim este exemplo de fado corrido ilustra uma coreografia sem recurso a passos sonoros por parte dos bailadores. Será talvez isso que permite distinguir o fado corrido do fado batido?

O FADO MANDADO

Outro elemento até agora não introduzido é a velocidade na qual a música é tocada, nesta área também existem bastantes variações. No caso do fado mandado, os exemplos encontrados no Youtube têm um andamento bastante moderado comparado com o fado batido. Estes fados mandados concentram-se sobretudo na região de Coimbra. Ainda assim, estão presentes nos dois lados da Serra da Estrela, tanto em Gouveia, Seia como no Fundão, Oleiros ou ainda Castanheira de Pera. A associação do fado mandado à serra parece relevante, na medida em que o fado serrano é outra forma de nomear este fado de andamento mais lento, incluindo a presença de um mandador entre os bailadores.
Com a análise dos vídeos encontrados no Youtube, infelizmente, torna-se complicado ouvir a voz do mandador, sobretudo por questões sonoras (a eletrificação da tocata e dos cantadores não permite ouvir a voz do mandador na roda). Neste vídeo, entende-se bem os mandos usados para realizar as figuras (será porque o som foi gravado em separado?): “Todos dançam”, “Mulher para frente”, “Bater palmas”, “Todos ao centro”, “Passa para trás, agarradinho”, “Passa para frente”, “Mulher por dentro, homem por fora”. Cada mando é introduzido por outras palavras, tal como “Certo”, “Certo agora”, “Vamos embora” ou “Ninguém se engana”, o que acrescenta alguma dinâmica à voz do mandador.

Considerando que o andamento é moderado e que o mandador anuncia as figuras a realizar sem grande codificação, podemos caracterizar o fado mandado como uma prática inclusiva, em que todos podem facilmente integrar uma roda de pares. Este fado mandado ilustra bem esta situação, porque mostra que os membros do Rancho Folclórico da Casa do Concelho de Pampilhosa da Serra convidaram membros do público para participar.

Ao nível coreográfico a formação espacial principal é uma roda de pares e a relação com o par e com a roda vai variando consoante as figuras mandadas. Assim, o par pode estar frente a frente, lado a lado, pode estar agarrado como pode estar ainda orientado para o centro da roda. As pegas são também variadas, os pares dão uma mão ou as duas mãos, e seguram-nas ao nível das ancas, das costas ou por cima dos ombros. Os pares andam na roda num ou noutro sentido, rodopiam sobre si e dão palmas e até pode haver lugar a troca de pares, como na figura do “enleio”. A formação pode passar de uma roda simples a uma roda dupla, as mulheres formando a roda de dentro e homens a de fora. Com a figura da “cesta”, as duas rodas juntam-se, graças aos braços que se entrecruzam, tal como uns vimes que formam uma cesta. E ainda observamos nalguns casos a formação de um cortejo, para realizar a figura dos “arquinhos”. O vídeo filmado em Coimbra permite visualizar a maioria das figuras encontradas.

As figuras do “enleio” e dos “arquinhos” são bastante comuns no repertório dos grupos folclóricos portugueses, sem obrigatoriamente incluir um mandador nem ter referência ao fado. Já a figura da “cesta” é menos presente. Encontramos no baile mandado no Algarve, no Douro Verde, mas também nas chamarritas nos Açores. O termo “cesta” é alias uma tradução do francês corbeille, figura coreográfica que integra a contredanse. Entendemos a contredanse não como uma dança em particular, mas como um género coreográfico que junta muitas danças e têm como ponto comum o facto de se privilegiar as relações interpessoais assim como as deslocações dos bailadores, em detrimento dos passos (Guilcher, 2004). A descrição de um tipo de contredanse, o cotillon, aproxima-se bastante da ideia de baile mandado em Portugal, uma vez que pode juntar imensas figuras numa só dança, devido à presença de um mandador que indica a ordem a seguir.

O FADO MANDADO NA LOUSÃ

Em relação ao concelho da Lousã, que integra o projeto “De volta aos Bailes Mandados em Portugal”, encontramos várias versões de fado mandado ou fado serrano, executados pelos grupos folclóricos do concelho, nomeadamente pelo Rancho Típico da Serra da Lousã, pelo Grupo Etnográfico da Região da Lousã (versão canto à desgarrada e concertina) mas também pelos membros da Escola de Concertinistas da Lousã.

O Rancho Folclórico e Etnográfico de Vilarinho tem uma dança chamada “serranas” cuja coreografia é a alternância entre a figura da cesta e a figura do enleio; sem mandador e nem fado.
No caso do repertório do Rancho Folclórico Flores de Serpins, “o verde gaio mandado” aproxima-se do fado mandado, tendo em comum as figuras, o passo base e o padrão rítmico do fado corrido. O andamento é muito mais acelerado (No vídeo o verde gaio mandado começa aos 18 minutos e 10 segundos.).

Com este projeto, esperamos aprender mais sobre o fado mandado neste concelho e esperamos que os lousanenses tenham vontade de reapropriar-se do fado mandado em contexto bailatório, tal como o pudemos vivenciar no Paul (Fundão) há alguns anos atrás, e tal como parece mostrar este vídeo filmado em Telhada (Figueira da Foz).

Imagens Grupo Etnográfico da Região de Coimbra – Fado Mandado

Texto de Sophie Coquelin

Bibliografia
Castelo-Branco, S. S.(ed.) (2011). Enciclopédia da música em Portugal no século XX. Lisboa, Circulo dos Leitores (4 vols.).
Castelo-Branco, S. S. & Freitas-Banco, J. (eds.) (2003). Vozes do Povo. A folclorização em Portugal. Oeiras, Celta. Doi:10.4000/books.etnograficapress.537
Guilcher, J. M.(2004). La contredanse : un tournant dans l’histoire française de la danse. Bruxelas, Centre National de la danse.
Nery, R. V. (2012). Para uma historia do Fado. Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda.
Sardinha, J.A. (2012). A origem do Fado. Vila Verde, Tradisom.

A Valsa Mandada no Litoral Alentejo, uma valsa amazurcada?

Quem nunca ouviu falar das Valsas Mandadas?
Desde 2007, a PédeXumbo multiplica as iniciativas para a valorização desta prática expressiva, junto com habitantes dos concelhos de Grândola e Santiago do Cacém. Com o projeto “De volta aos Bailes Mandados em Portugal”, inicia-se uma nova etapa: recuperar o território desta valsa! Com efeito, a valsa mandada ou valsa sagorra é hoje associada à Serra de Grândola, dividida entre os dois concelhos citados anteriormente. No entanto, existem vários indícios que mostram que esta valsa estava presente noutros concelhos do Alentejo Litoral. Além de explicita-los, vamos sintetizar e completar o trabalho feito por colaboradores da PédeXumbo ao longo destes anos.

SALVAGUARDAR A VALSA MANDADA

Em 2007, vários membros da Associação PédeXumbo (PX) deslocam-se até à garagem do Senhor Gamito, na Serra de Grândola, para conviver e bailar com o Grupo de Valsas Mandadas de São Francisco da Serra. Seguiram-se vários intercâmbios entre a Serra e Évora. Elza Neto efetua recolhas áudio de tocadores de Valsas Mandadas. A PX organiza um festival dedicado à valsa em Santa Margarida da Serra (Aqui há baile) e encomenda um filme ao realizador Tiago Pereira, Manda Adiante (acessível aqui).

@ imagens do filme Manda Adiante de Tiago Pereira

Em 2010, Lia Marchi efetua uma segunda fase de recolha, mais dedicada à arte de mandar. Os resultados foram publicados no livro Caderno de Danças do Alentejo vol.1 (disponível aqui), junto com material vídeo e áudio (disponível aqui).

Em 2012, Domingos Morais realiza uma terceira fase de recolha e organiza toda a documentação até agora encontrada. Disponibilizou online mais alguns vídeos (acessíveis aqui)

Em 2019, a PédeXumbo edita uma brochura da colecção Para Conhecer e Fazer com textos de Marta Guerreiro dedicada à valsa mandada e aos dois mandadores que colaboram há muito tempo na valorização desta prática expressiva (à venda aqui).

É de realçar que todas estas etapas foram realizadas graças à colaboração de pessoas que vivem nos concelhos de Grândola e Santiago do Cacém e, em particular, graças a Manuel Araújo. Além de acompanhar as recolhas, disponibilizou o seu arquivo pessoal (publicado no livro de 2010) e multiplicou a dinamização de workshops de valsas mandadas em todo o país. Acompanhado pela sua esposa e por Marlene Mateus, na concertina ou no acordeão, elaborou sessões de transmissão de forma a ensinar gradualmente as diferentes figuras. De facto ensinar uma dança sem coreografia à partida implica um método específico, mas nada que seja complicado para um professor de Educação Física, agora reformado.

A estratégia da PX para a valorização de práticas expressivas é sempre a mesma: recolha, transmissão e criação. As recolhas e as edições permitiram dar a conhecer esta prática desconhecida, em particular fora da Serra da Grândola. Porém, gravar ou registar uma dança não basta para a sua salvaguarda! É preciso ser incorporada, ou seja, uma dança mantém-se viva se é bailada. Vejam aqui o resultado de uma oficina de Valsa Mandada, dinamizada por Manuel Araújo, durante o Festival Andanças, em 2018. Junto à transmissão, a PX investiu na criação de novos arranjos. Foi neste sentido que programou uma residência artística em 2012, que se concretizou com a criação do grupo Aqui há Baile.

A PX deu ainda a conhecer a Valsa Mandada à coreografa Clara Andermatt. Além de usar como título do espetáculo um dos mandos – Fica no Singelo –, o climax deste espetáculo de dança contemporânea, com música ao vivo, é a revisitação da valsa mandada, com um despique que vai crescendo entre músicos e bailarinos (excerto a 3min do vídeo promocional do espetáculo).

@imagem de Inês D’Orey, espetáculo Fica no Singelo de Clara Andermatt

Com isto tudo, a valsa mandada está salvaguardada?
Ainda não. Ao longo destes anos todos, grupos de valsas mandadas, mandadores e acordeonistas, tais como Fernando Augusto, Marlene Mateus e Adélia Botelho, dinamizaram sessões para ensinar, praticar a valsa e dar-lhe visibilidade. Mas não basta. Felizmente, o ator em falta para tornar a salvaguarda efetiva entrou em ação nos últimos três anos, a Câmara Municipal de Grândola! Promove ações de formação localmente e candidatou a Valsa Mandada ao programa televisivo “7 Maravilhas da Cultura Popular” em 2020. Aguarda-se a realização de uma candidatura ao Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, uma vez que este processo implica um plano de salvaguarda para garantir que, daqui há 10 anos, a prática esteja viva.

A VALSA, MÚSICA E DANÇA

Agora recuamos um pouco no tempo para entender como é que esta Valsa Mandada surge no Alentejo Litoral. Segundo Alexandra Canaveira de Campos (in Tércio, 2010), as primeiras menções da valsa em tratados de dança em Portugal surgem em meados do século XIX. Faz parte das danças ditas românticas, junto com a polca, a mazurca e outras danças com pares agarrados, que encontram um grande sucesso em toda a Europa. Primeiro limitadas às elites, difundem-se nas zonas urbanas, atravessam as diferentes classes sociais e chegam às zonas rurais. No século XX, as danças a par que estavam na moda já não provinham do centro da Europa, mas das Américas (tango, fox-trot).

Não vamos entrar em pormenor na questão da origem da valsa – deixamos em bibliografia alguns livros dedicados ao tema -, mas podemos abordar a questão da distinção entre as três danças a par referidas – valsa, polca e mazurca. Para quem sabe dançá-las é fácil identificá-las e para quem as sabe tocar também. Mas como explicá-lo com palavras?
Para quem procura estudar a difusão destas danças no território português, torna-se bastante complicado porque os nomes dados às danças/músicas podem variar. Além disso, existe pouca descrição escrita para identificar com clareza do que se fala.
Geralmente associa-se a valsa ao ternário e a polca ao binário. No caso da mazurca, o que a distingue da valsa é a acentuação dos tempos. Mas tudo isso é ainda bastante imperfeito, e sobretudo existe muita variação. Fala-se por exemplo em valsas de 2, 3, 4, 5 e 8 tempos. Aqui, a confusão surge da própria referência numérica. Ou se fala em pulsação, ou seja no número de tempos por compasso, ou se fala em subdivisão do tempo, binária ou ternária. Neste caso, trata-se de saber se o tempo se divide em duas ou três unidades. A introdução da noção de compasso implica, por sua vez, a noção de acentuação, especialmente no caso do repertório musical para dança. Os tempos não têm todos a mesma importância, tal como na língua portuguesa, as palavras são compostas por várias silabas e só uma é acentuada. A acentuação varia consoante a música/dança, tal como as regras de acentuação mudam consoante o idioma.

Afinal, estamos a dizer que é a vertente musical que permite distinguir as danças entre elas e, de facto, existe uma convergência muito forte entre música e dança. Para descrever a valsa, o número três é quase sempre implícito. Pode ser 3 tempos como pode ser um compasso com subdivisão ternária do tempo. A nível coreográfico, a valsa caracteriza-se pelo rodopio dos pares, mas aqui também existem muitas variações. Basta ver a valsa chamada Boston, ou ainda as valsas executadas no contexto da dança desportiva, a Valsa Vienense e a Valsa Inglesa.

AS DANÇAS A PAR, A SUL DE PORTUGAL

Por outro lado, uma mesma música pode incluir a combinação de dois tipos de dança. Neste caso, mais do que falar em dança, poderíamos falar em passo: o passo da valsa, o passo da polca, etc…
Tal como a Valsa de Dois Passos executada pelo Rancho Folclórico Danças e Cantares de Vale do Paraíso (Azambuja), recolhida na Estremadura por José Alberto Sardinha, faz alternar mazurca e valsa. No Algarve, esta mesma alternância surge no Balso Rasteiro, executado pelo Grupo Folclórico da Luz de Tavira. A nível coreográfico, observa-se facilmente a alternância. Na mazurca, fazem-se passos laterais picados e na valsa roda-se com o par. A música pode ser escrita em 6/8, ou seja, dois tempos por compasso, sendo que a subdivisão do tempo é ternária. Na parte da valsa, o tempo forte está no primeiro tempo enquanto na parte da mazurca o tempo forte está no segundo tempo.

A Meia-passada, dançada pelo Grupo dos Amigos das Valsas Mandadas da Casa do Povo de Melides e pelo extinto Grupo de Valsas Mandadas de São Francisco da Serra, é também uma música onde se alternam dois tipos de passos. Reconhece-se o passo lateral picado do Balso Rasteiro e, na segunda parte, a valsa é substituída por uma polca. Aqui estamos numa conceção claramente binária do tempo.

Porque falar da Valsa de Dois Passos, do Balso Rasteiro e da Meia-passada aqui?
Porque estas aparecem no território onde a Valsa Mandada é referida. Quando Tomaz Ribas introduz, no seu livro, o Balso Rasteiro, ele dá como sinónimo o Balso Marcado, especificando que se trata de uma valsa amazurcada. No Sul de Portugal, vários grupos folclóricos bailam uma Valsa Marcada que corresponde à mesma caracterização. Porém, pode tornar-se, por vezes, complicado distinguir uma Valsa Marcada e uma Valsa Mandada, do ponto de vista musical.
Aqui temos um exemplo de Valsa Marcada, executada pelo Rancho Folclórico Fazendeiros de Montemor-o-Novo (a partir de 3min.).
A confusão aumenta quando Natália Varão, entrevistada em 2012 por Domingos Morais, em Santo André, assume que a Valsa Mandada podia ser chamada de Rasteira (no vídeo, a 9 min.).

A nível coreográfico, a aproximação entre a Valsa Mandada e a Valsa Marcada é menor. Com efeito, a Valsa Mandada não implica uma alternância entre dois passos distintos. Além disso, a Valsa Mandada inclui a presença de um mandador, figura que está ausente na Valsa Marcada. No entanto, tendo em conta que o mandador desaparece muitas vezes no contexto folclórico, pode manter-se a dúvida sobre o facto da Valsa Marcada ter sido originalmente mandada. Pois, por vezes, usa-se a noção de marcação para caracterizar a arte de mandar.

Tal como o explica Adélia Botelho, no filme Manda Adiante, a Valsa Mandada tem qualquer coisa que permite identificá-la facilmente! Talvez seja o recurso frequente à anacruza ou a importância da componente rítmica na melodia. Tal como a Valsa de Dois Passos e a Valsa Marcada, pode ser escrita em 6/8, ou seja, dois tempos por compasso, com subdivisão ternária. Porém, esta questão não está completamente fechada, uma vez que Adélia Botelho e Lia Marchi assumem que a Valsa Mandada se escreve em 3/4, ou seja, num compasso de três tempos com subdivisão binária. O que muda drasticamente entre estas duas conceções do tempo é o andamento! Se escutarmos a Valsa Mandada por Eusébio Pereira, o andamento é bastante lento (à volta de 70 pulsações por minuto) ao marcar o compasso em 6/8, ou muito rápido (210 pulsações por minuto) com compasso em 3/4.

@vídeo de A Dança Portuguesa a Gostar dela Própria, realização de Tiago Pereira

Por sua vez, a organização temporal da vertente coreográfica sublinha o 6/8, uma vez que cada compasso corresponde a um passo da Valsa Mandada. O passo-base pode ser definido como um balanço, onde alternam dois passos, primeiro o par aponta pela esquerda e regressa ao centro, e segundo, o par aponta pela direita e regressa ao centro. Para cada passo/compasso, muda-se duas vezes de perna de apoio. Quando apontam pela esquerda ou pela direita (primeiro tempo), o peso do homem fica na perna direita. Quando regressa ao centro (segundo tempo), o peso fica na perna esquerda.
Entrando em mais detalhes, para cada mudança de apoio existe uma troca rápida de pé e uma elevação de calcanhar, o tal passo valseado que surge em imensas danças tradicionais em Portugal. Pela alternância destes dois passos, o mandador tem que antecipar e anunciar uma figura para a esquerda quando se encontra do lado direito, e vice versa.

A VALSA MANDADA, UMA VALSA COLETIVA

A valsa, no seu entendimento mais comum, é uma dança com pares agarrados e autónomos. Ou seja, cada par escolhe o percurso a realizar na pista da dança, independentemente dos outros. Ainda assim existem algumas regras para garantir que os pares não chocam uns com os outros. Uma delas incide na circulação dos pares na pista em sentido anti-horário. Porém, esta definição não se adequa para a Valsa Mandada. Com efeito, trata-se de uma valsa coletiva, com pares organizados em roda e com um mandador que anuncia as figuras coreográficas a realizar de seguida. Na Valsa Mandada, os pares são interdependentes e formam uma roda de pares. Esta organização coletiva faz lembrar a contredanse e os seus avatares, quadrille e cotillon. Todas as danças que pertencem a este género coreográfico têm em comum o facto de se valorizarem deslocações no espaço (e não tanto passos complexos) e as relações interpessoais entre os bailadores. Fala-se em avatar na medida em que a contredanse não parou de variar ao longo destes dois séculos, seja a nível das figuras coreográficas, seja a nível da formação espacial dos bailadores.

Cronologicamente falando, a contredanse surge antes das danças a par. Os primeiros tratados de dança publicados em Portugal datam da segunda metade do Século XVIII e são dedicados à contredanse francesa. Este género espalha-se na população ao longo do século XIX. Em várias descrições encontradas, fala-se da introdução da valsa nas coreografias da contredanse. No youtube, é possível encontrar valsas coletivas, com sequências fixas de figuras e eventuais trocas de pares. Aqui o mandador não existe, os bailadores devem decorar a sucessão de figuras. Noutras situações, pode haver quem lembre a sucessão, verbalizando o nome das figuras.

Dentro dos avatares da contredanse, o cotillon interessa-nos muito porque se torna a dança “pot-pourri”, onde todas as figuras podem ser executadas. Aqui não se trata de decorar uma sequência de figuras, mas sim de reagir ao que o mandador anuncia. Tem também a particularidade de todos os bailadores executarem, ao mesmo tempo, as figuras (e não um par de cada vez, como na contredanse e na quadrille), o que permite aumentar o número de pares na pista.
Alexandra Canaveira de Campos (in Tércio, 2010) descreve o cotillon como a dança que finaliza o baile em Portugal, entre meados do século XIX e início do século XX.
Aproximamo-nos muito do que podem ser as origens da Valsa Mandada, mas sempre com um grau de incerteza, devido à falta de fontes escritas que possam comprovar esta hipótese.

MANDAR E BAILAR VALSAS MANDADAS

As diferentes recolhas efetuadas até hoje, na Serra de Grândola, permitem recuar há 100 anos atrás, até, pelo menos, à época dos pais de várias pessoas entrevistadas, em 2007. Venâncio Costa tinha 87 anos quando foi entrevistado no centro de dia de Santiago de Cacém. Natural de São Francisco da Serra, foi iniciado à Valsa Mandada durante a sua adolescência. Tocava-a na concertina e mandava-a. Este senhor transmitiu de forma muito clara a complexidade intencional das Valsas Mandadas. Ao contrário do que se diz hoje, ele reivindicava o facto de se bailar com o par, tanto à direita como à esquerda. Na execução do Rancho Folclórico Cinco Estrelas de Abril, permanece em parte a ideia de alterar a relação entre o par com o mando “Fica no singelo por fora” (1min05 do vídeo)

Referindo-se aos membros do Grupo de Valsas Mandadas de São Francisco da Serra, como os jovens, Venâncio Costa insistia sobre a quantidade elevada de figuras e sobre a sua dificuldade técnica, assumindo que a performance do extinto grupo era muito aquém do que se fazia anteriormente. Falava também em criação de figuras inéditas. Vídeo do grupo extinto.

Esta complexidade vai a par com o carácter exclusivo da Valsa Mandada. Vários mandadores insistem no facto dos bailadores terem de sair da pista se se enganavam, ou seja, existia uma competição forte entre quem estava a bailar. Além disso, durante uma valsa, o mando passava por todos os mandadores presentes na pista. Através das recolhas realizadas por Manuel Araújo (e publicadas no Caderno de Danças do Alentejo), nota-se que existia alguma variação na forma de anunciar as figuras, o que eventualmente aumentava a complexidade. Com efeito, os mandos raramente explicitam o que é para fazer, são codificados.

Hoje, existem muitos recursos online para aprender a bailar esta valsa. Além dos vídeos associados ao Caderno, o acordeonista Luís Vicente disponibiliza, no youtube, uma Valsa Mandada que inclui a gravação dos mandos de José Lenhas.

No Caderno de Danças do Alentejo vol.1, sistematizou-se a informação para descrever a organização espacial e algumas figuras mandadas nesta valsa (Pagina 56 a 64).

Pode-se acrescentar mais um nível de descrição, distinguindo o passo-base das figuras. Com efeito, o passo-base implica um balanço: ou o par aponta pela esquerda ou aponta pela direita. Uma vez que as posições do homem e da mulher na roda são diferentes, consoante este balanço, uma figura mandada de um lado ou do outro lado não será a mesma.
Vamos exemplificar com as figuras “Meia cadeia” e “Passa por diante”. Nas paginas 62-63 do Caderno, existe uma descrição detalhada dos movimentos. Se retirarmos o que tem a ver com o passo-base e a orientação na roda, apenas precisamos de descrever a figura “Meia-cadeia” da seguinte forma: a mulher dá uma volta ao homem, o par segura-se com uma mão em 6 tempos. Na figura “Passa por diante” o que muda é a ausência de contacto entre o homem e a mulher. Para facilitar o movimento da mulher, o homem deve deslocar-se um pouco, para frente e para trás. Assim, quando estas duas figuras são mandadas à direita, a mulher inicia logo a volta ao homem, no sentido horário e quando são mandadas à esquerda, o homem deve primeiro deslocar-se para frente para a mulher poder dar a volta em seguida, no sentido anti-horário.

Duas formas de descrever o mesmo. O que muda? Ao distinguir os movimentos do passo-base dos movimentos das figuras, torna-se possível destacar o balanço em si. Aqui estamos noutro nível da dança, que tem a ver mais com a assinatura corporal da Valsa Mandada do que com conhecimentos técnicos. Trata-se de manter o balanço esquerdo-direito, independentemente das figuras executadas. Isso é o grande desafio da Valsa Mandada, pois não se pode mandar se os pares não estiverem todos orientados para o mesmo lado. Trata-se de encontrar a organicidade desta valsa coletiva, deixar o corpo e o do seu par em alerta para o balanceado e escutar a voz do mandador.

No que toca à descrição da vertente coreográfica da Valsa Mandada, existem ainda duas curiosidades a introduzir.
A primeira prende-se com uma entrevista disponível aqui, onde o mandador Eusébio Pereira se refere à técnica do sapateado como tendo sido utilizada na Valsa Mandada. Nada de chocante quando estamos a falar de uma prática onde os bailadores e mandadores exibem as suas competências! O sapateado (ou fandango) acaba por ser uma forma de acrescentar, à coreografia coletiva, alguma virtuosidade individual e graça à sonorização dos passos. Alberto Gamito e Aldina Pereira referem-se à mesma questão, usando para o efeito a palavra “pecinhas” (Entrevista realizada em 2010).

Nesta mesma entrevista, Eusébio Pereira associa a dança “Puladinho” à Valsa Mandada.
O Rancho Folclórico Os Fazendeiros de Montemor-o-Novo executa uma versão em quadrilha desta dança fandangueada, mas não valseada. No discurso de introdução, a questão do despique entre os bailadores é também abordada.

A segunda curiosidade incide num elemento que continua a interrogar-nos passado tanto tempo, que é a forma como as deslocações na Valsa Mandada são bastante limitadas no espaço. Com efeito, os pares rodam um em cima do outro, mesmo quando não se tocam, como se houvesse falta de espaço. Sabendo que a Valsa Mandada tinha lugar nas casas particulares no campo – as referidas “funções” -, pode-se questionar se o lugar terá tido algum impacto na forma como a Valsa chegou até nós. Ou seja, no processo de apropriação da valsa, esta poderá ter visto as suas deslocações encolher por ser executada em espaços pequenos e, no processo de criação de novas figuras, poderá ter sido valorizado o jogo de braços e os rodopios cerrados.
O que se sabe é que na década 1950, a GNR começou a exigir licenças para organizar funções, o que prejudicou grandemente a continuação dos convívios familiares à volta da Valsa Mandada e outras danças de par. Júlio Nunes explica muito bem as consequências que o seu pai endossou por não ter pedido licença (filme Manda Adiante, a partir de 9 min. 40).

O TERRITÓRIO DA VALSA MANDADA

Partindo das características musicais da Valsa Mandada, encontramos várias versões áudio gravadas por Michel Giacometti, no concelho de Alcácer do Sal, nos anos de 1980 (O Ladrão do Sado acessível aqui), nomeadamente Toque Sagorra (vol.1), Sagorra e Sagorra II (vol.2).
Em 2015, Tiago Pereira filmou uma Valsa Mandada neste mesmo concelho, com uma senhora a mandar.

No que toca ao repertório de grupos folclóricos, encontramos várias versões de Valsas Marcadas ou Valsas de Dois Passos, em concelhos alentejanos ou mais longe ainda, mas nenhum grupo possui mandadores.
Valsa Marcada, pelo Rancho folclórico Danças e Cantares da região do Barreiro (Barreiro)
Valsa Alentejana, pelo Grupo Etnográfico Planície Alentejana (Aljustrel)

No repertório do Rancho Folclórico e Recreativo de Lagoinha (Palmela) é mencionada uma dança chamada “Sagorra”, mas não foi possível encontrar vídeo ou áudio para poder comparar.

Porquê então assumir que a Valsa Mandada vai além da Serra de Grândola?
Primeiro porque Giacometti gravou-a fora da Serra. Segundo, porque os tocadores circulavam no território, além do seu concelho de origem. Fernando Augusto é um bom exemplo. Tocador afamado de concertina e acordeão e natural do concelho de Grândola, podia ir animar um baile até ao concelho de Odemira. Terceiro, porque se fala muito em mobilidade de pessoas no Alentejo Litoral, por causa da monda do arroz que atraía muita gente para a zona do Sado. Existem outras razões para as pessoas se moverem, tais como a ida à Feira de Castro Verde ou ainda aos banhos de São Romão, que traziam muitos camponeses para a costa de Santo André (Santiago do Cacém). Quarto, porque a presença da concertina, harmónica e acordeão na região ilustra uma boa permeabilidade às novidades trazidas de fora. Tal como o sublinha José Alberto Sardinha, no seu livro dedicado às tradições na Estremadura, estes aerofones de palheta metálica substituíram progressivamente os instrumentos até então usados (cordofones e aerofones do ciclo pastoril), a partir da segunda metade do século XIX. Além disso, adaptam-se perfeitamente ao repertório musical das danças a par.
Enfim, a Valsa não terá chegado até os serranos sem passar primeiro por outras populações, tais como os habitantes das vilas e dos portos nos arredores. O que nos parece mais provável é que a Valsa Mandada tenha integrado o fluxo de danças que se sucederam durante os séculos XIX e XX. Enquanto muitas eram substituídas por novas danças, a Valsa Mandada permaneceu mais tempo naquela zona, tendo encontrado perto da população serrana uma maior afeição. Tal como o veremos para a Contradança inserida no Baile da Pinha, no Alentejo Central, uma prática expressiva pode revestir-se de uma dimensão ritual em determinadas comunidades e noutras comunidades ser apreendida apenas como um fenómeno de moda, caracterizado pelo ser temporário e rapidamente substituível.

É o que nos sugere o testemunho de Manuel Araújo sobre os bailes organizados na Feira de Melides, durante a sua juventude (anos 1960). Fala em dois bailes a acontecer em simultâneo, organizados em dois lugares diferentes, para dois tipos de população. No Casão do Tio Bernardino, os serranos/camponeses bailavam sobretudo Valsas Mandadas enquanto na Casa do Povo, os habitantes da aldeia bailavam tangos, fados e outras danças a par, que estavam na moda naquela altura. Aqui parece sobrepor-se uma questão de estratificação social entre as diferentes populações que viviam na freguesia de Melides, fenómeno social que foi bem estudado por José Cutileiro no Alentejo. Por outro lado, já estava em marcha o êxodo rural e, com isso, o abandono das zonas menos produtivas, tal como a Serra. Para quem vivia ali, como é que estas mudanças terão sido recebidas? Como manter a coesão numa comunidade que fica esvaziada da sua gente nova, atraída pelas cidades? Neste contexto, pode-se perguntar se a complexidade da valsa mandada não terá sido uma forma de resistência simbólica face a um futuro que já se adivinhava.

A VALSA MANDADA EM SINES

Não foi encontrada, até agora, nenhuma menção à Valsa Mandada neste concelho em específico, excepto num vídeo de um baile realizado em Sines, durante uma festa popular em 2011, encontrado no youtube. No palco, um acordeão e uma caixa de ritmo tocam uma Valsa Mandada. No chão, dezenas de pares valseiam de forma autónoma. Mas, independentemente da presença ou não de um mandador na pista, como é que a sua voz podia ser ouvida, com tantas colunas de som a tocar no palco?

Existem vários argumentos que permitem justificar esta situação, o que nos leva a manter a esperança de um dia encontrar alguma menção à Valsa Mandada neste concelho. Primeiro, é preciso referir que Sines fez parte do concelho de Santiago do Cacém, entre 1855 e 1914, época que corresponde à chegada e prática da valsa em Portugal. Neste sentido, distinguir este concelho do concelho vizinho pode ser relativo. Segundo, ao contrário do Algarve, a costa sul alentejana não foi alvo de turistificação de massa a partir dos anos 1960, o que poderá explicar a ausência de grupos folclóricos nos concelhos de Sines e Odemira. De facto, o folclore e o turismo são dois fenómenos que andam juntos, uma vez que um precisa de outro para se assistir às representações da cultura local.
Por fim, o concelho de Sines foi alvo de mudanças grandes no seu território, o que terá trazido outras preocupações maiores do que manter as tradições locais. Com efeito, depois de um êxodo rural forte em todo o Alentejo, a partir da década de 1950, Sines passou a receber população de fora a partir da década 1970, ao ter-se transformado num dos principais complexos portuários e industriais de Portugal.

À falta de referências no âmbito folclórico, encontram-se na literatura algumas pistas sobre a evolução das práticas coreográficas neste concelho. Na sua monografia sobre Sines, editada em 1850, o médico algarvio Francisco Lopes cita apenas como dança os bailes de roda acompanhados pelo canto. Quase cinquenta anos depois, a siniense Cláudia Campos edita Elle, livro com dimensão autobiográfica, apesar dos nomes e lugares serem trocados. Neste livro, cita a valsa, bailada e tocada ao piano pela alta sociedade. Em 1890, José Maria Soeiro de Brito declara como urgente o facto de recolher as tradições coreográficas alentejanas, uma vez que estas foram substituídas pela “invasão das aristocráticas, pedantes, anti-higiénicas e soturnas danças francesas”.

Afinal, parece-nos que o repertório de danças a par coincide com a introdução de novos instrumentos, os tais aerofones de palheta metálica, no Alentejo Litoral. Estamos aqui a falar de um período entre 1850 e 1900.

Uma última menção a Sines vem-nos através da velha concertina do afamado tocador de Valsa Mandada, Manuel Louricho. O seu sobrinho refere-se a esta como tendo sido fabricada por um sujeito em Sines (Na entrevista, a 21 min. 30). Ficou também registado nas letras dedicadas ao tocador (Pagina 70 e 71 do Caderno).

Bibliografia
Sobre o contexto português
Castelo-Branco, S. S.(ed.) (2011). Enciclopédia da música em Portugal no século XX. Lisboa: Circulo dos Leitores (4 vols.).
Castelo-Branco, S. S. & Freitas Branco, J. (eds.) (2003). Vozes do povo, a folclorização em Portugal. Oeiras: Celta. Acessível online.
Coquelin, S. (2012). Le Bal au Portugal: entre patrimonialisation et création. Le travail de l’association PédeXumbo autour des danses traditionnelles d’Alentejo. Trabalho de fim do 1º ano de Mestrado. Acessível online.
Lima, P. (coord.). (2010). Filmografia Completa de Michel Giacometti. Vila Verde: Tradisom / Jornal Público.
Marchi, L; Piedade, C. & Morais, D. (2010). Caderno de Danças do Alentejo, vol.1. Évora: PédeXumbo.
Nunes, C. (2008). O baile popular no Baixo Alentejo no início do século XXI. In Etno-folk, revista galega de etnomusicoloxía, 12, 87-106.
Ribas, T. (1982). Danças populares portuguesas. Lisboa: ICALP.
Sardinha, J.A. (2000). Tradições Musicais da Estremadura. Vila Verde: Tradisom.
Tércio, D. (coord.) (2010). Dançar para a Républica. Lisboa: Caminho.

Sobre a valsa e danças de par
Appril, C. (2006). Sociologie des danses de couple. Une pratique entre résurgence et folklorisation. Paris : l’Harmattan.
Bakka, E. ; Buckland, T.J. ; Saarikoski, H. & Wharton, A. B. (eds.) (2020). Waltzing through Europe. Attitudes towards Couples Dances in the long Nineteenth-Century. OpenBookPublishers.
Guilcher, J. M. (2009). Danse traditionnelle et anciens milieux ruraux français. Paris: l’Harmattan.
Hesse, R. (1989). La Valse. Révolution du couple em Europe. Paris: A,-M. Métaillé.
McKee, E. (2012). Decorum of the Minuet, Delirium of the Waltz: A Study of Dance-Music Relations in 3/4 Time. Indiana: Indiana University Press.
Yaraman, S. H. (2002). Revolving Embrace: The Waltz as Sex, Steps, and Sound. Hillsdale, NY: Pendragon Press.

Entrevista com Sophie Coquelin

Coordenadora Científica do Projeto

Primeiro que tudo, e porque muitos não têm informação sobre esta prática, o que são Bailes Mandados?

Existe uma dança chamada “baile mandado” no Algarve, mas para este projeto, usamos o termo como categoria para cobrir diferentes danças que existem um pouco por todo o mundo. Têm em comum o facto de haver um mandador que anuncia figuras coreográficas a executar. Este mandador pode, por vezes, ser bailador ao mesmo tempo, ou ficar ao lado dos tocadores.

A figura do mandador ou marcador pode ser associada à contredanse, um género coreográfico que se difundiu a partir das cortes francesa e inglesa para todo o mundo, sob influência ocidental. Apesar de estar inicialmente ligada às elites, a sua difusão abrangeu todas as classes sociais, ao longo dos séculos XVIII e XIX. O mandador relembra a sucessão de figuras que constituem danças “complicadas” ou cria, no momento, uma nova sucessão de figuras, inédita. Isto corresponde à descrição do cotillon, um tipo de contredanse.

Há muitas variações dentro desta categoria de baile mandado, quer seja ao nível da função do mandador, quer seja ao nível da dança, pois a figura do mandador também aparece nas danças de par, tal como na rueda de casino em Cuba.

Em todos os casos, estamos a falar de danças coletivas, uma vez que o sucesso da dança depende do mandador e dos bailadores. Estes devem saber que movimentos são associados às figuras mandadas. Em alguns casos, os mandos explicitam literalmente o que é para fazer, noutros, não.

Qual a particularidade do baile mandado em relação a outras danças tradicionais em Portugal?

Temos referências de bailes mandados de norte a sul do país, inclusive nos arquipélagos. Em alguns casos, a prática manteve-se viva até hoje, em contexto bailatório ou ritual. Isso, já por si, é incrível, pois geralmente ouve-se dizer que as tradições se perderam. Noutros casos, apenas existem no repertório de grupos folclóricos. Ainda assim, a adaptação das danças para palco pode ter implicado o desaparecimento do mandador, em favor da criação de uma sequência fixa de figuras, decoradas pelos dançarinos.

Além disso, a figura do mandador é bastante fascinante, traz algum prestígio a quem manda, porque não é qualquer um que é capaz de o ser. É preciso ter várias valências, tais como um domínio correto da dança, aptidões musicais e uma boa projeção da voz! Podemos comparar o mandador a um cantor ao desafio, porque deve saber adaptar-se ao momento e respeitar as regras que enquadram a prática. 

Tanto o contexto de execução como a prática em si podem ajudar-nos a entender a razão pela qual vários bailes mandados se mantiveram vivos até hoje. A atenção que os bailadores demonstram para o momento presente e a vivacidade das interações despoletam a emoção, a celebração do estar em grupo. Um baile mandado ilustra uma certa coesão social e ao mesmo tempo potencia a expressão individual. Talvez não seja por acaso que mandar e cantar à desgarrada eram práticas que aconteciam em simultâneo antigamente. Estas práticas materializavam a expressão da voz do povo, durante as quais era possível relatar momentos que marcaram a história local.

“De volta aos Bailes Mandados em Portugal” é o novo projeto da PédeXumbo, apoiado pela iniciativa “Tradições”, promovida pela EDP. Fala-nos um bocadinho sobre o que será este projeto.

Primeiro é preciso enquadrar este projeto no trabalho de terreno que a PédeXumbo faz há anos. Vários dos seus colaboradores procuraram práticas expressivas ainda vivas no seio das comunidades. As recolhas efetuadas de norte a sul de Portugal foram diretamente incorporadas por professores de dança e músicos para serem dadas a conhecer noutros contextos performativos. Tudo isto tem implicado um trabalho com as comunidades e um diálogo com gente de fora. Acreditamos que só através do diálogo, do encontro com o outro, é que se mantêm vivas as tradições. O próprio processo de folclorização desenvolveu-se quando os camponeses se cruzaram com os urbanos e os estrangeiros.

Este novo projeto procura pôr em diálogo diferentes comunidades, para aprenderem práticas uns dos outros e descobrir o contexto no qual as práticas são incorporadas. Uns poderão mostrar como revitalizaram o seu baile mandado, outros poderão encontrar inspiração para fazer o mesmo no seu lugar/concelho.
Com a febre da patrimonialização que se espalhou em Portugal, depois da ratificação da Convenção da UNESCO para a salvaguarda do PCI (Património Cultural Imaterial), nota-se que há uma vontade maior em praticar danças tradicionais fora do contexto folclórico. Podemos citar o exemplo dos encontros aos domingos em Arcos de Valdevez, ou ainda os encontros de minhotos que vivem na Grande Lisboa, nos parques da cidade. Este projeto visa facilitar esta reapropriação, pôr as pessoas a bailar no terreiro e identificar as condições para que seja efetivo.

Nos anos 1970, Pierre Sanchis já observava como os altifalantes nas romarias davam cabo da expressão espontânea do povo, que parou de cantar, tocar e bailar. Da mesma forma, a eletrificação dos instrumentos musicais tornou a voz do mandador inaudível. É preciso garantir boas condições acústicas para a realização de um baile mandado.

Este é um projeto de âmbito nacional e que vai chegar a vários pontos do país. Onde exatamente? E qual a expressão dos Bailes Mandados nestes territórios escolhidos?

O programa da EDP centra-se em concelhos onde uma barragem da empresa foi construída, por isso, escolhemos quatro concelhos onde sabemos que existem/existiram bailes mandados: no Norte, em Ponta da Barca (Vira e Chula Mandada); no Centro, na Lousã (Fado mandado); no Sul, em Reguengos de Monsaraz (Contradança no Baile da Pinha) e em Sines (Valsa mandada).

A nossa proposta é trabalhar nestes 4 concelhos e envolver quem queira participar. Primeiro, faz-se uma formação para conhecer vários tipos de bailes mandados, nestes quatro concelhos. Numa segunda fase, programa-se um encontro em Reguengos para que estas quatro comunidades possam dialogar através da dança. Além de pôr as pessoas a bailar, o objetivo é também formar novos mandadores. Quem já sabe bailar também poderá aprender algo novo.

Há já repertório escolhido para ser trabalhado?

Em 2007, a PédeXumbo iniciou um trabalho à volta das valsas mandadas no litoral alentejano. Limitado hoje à serra de Grândola, que se divide entre Grândola e Santiago do Cacém, é muito provável que esta prática existisse num território mais abrangente, no passado. Professor de educação física reformado, Manuel Araújo é um grande dinamizador da valsa mandada localmente. Contou-nos que já na sua juventude, era apenas executada por uma parte da população. Em dias de festa em Melides, havia dois lugares onde bailar, os moradores da vila ficavam separados dos habitantes da serra. Eram estes últimos que mantinham viva a valsa mandada.

Em Montemor-o-Novo, existe uma valsa marcada, que é também uma valsa de 2 tempos mas não há mandador. Como marcar e mandar são sinónimos, pode-se imaginar que no passado se tratava da mesma dança.

Em Alcácer do Sal, Michel Giacometti gravou várias músicas que correspondem à valsa mandada. Os nomes dados às músicas são Valsa de dois tempos e Sagorra. (O Ladrão do Sado, Vol. 11)

No youtube há um vídeo de um baile em Sines que mostra um conjunto a tocar uma valsa mandada e pares soltos a dançar, sem nenhum mandador.

Há uns anos atrás, Tiago Pereira da MPAGDP ligou à PédeXumbo depois de ter ouvido o testemunho de uma pessoa em Almeida que falava de uma dança cuja descrição se aproximava da valsa mandada. Almeida! Fica muito longe do litoral alentejano!

A contradança, executada nos bailes da Pinha, existe nos arredores de Évora e de Reguengos de Monsaraz. Aqui a prática coreográfica manteve-se, mas a música foi-se atualizando de acordo com os gostos atuais. Tem uma conotação ritual, pois esta dança mostra os jovens adultos à comunidade, como se fosse um rito de passagem. Talvez, no passado, esta dança não tenha tido esta conotação ritual, mas a meu ver, é por tê-la que a prática se manteve até aos dias de hoje. Este exemplo mostra como a tradição é dinâmica e, sobretudo, como tem que fazer sentido às comunidades nos dias de hoje. Actualmente o mandador foi substituído pelo ensaiador, e já não participa ativamente na performance no dia do baile da Pinha.

 

 

 

 

 

 

No Minho, temos conhecimento dos contextos durante os quais podemos ver os viras serem mandados: as festas de verão! Quem lá vai só pode ficar de boca aberta com os ajuntamentos espontâneos de bailadores, castanholas e concertinas! A dança está muito presente nesta região, porque existe um número elevado de grupos folclóricos. Existe também uma emigração muito forte. Com este projeto, talvez entendamos melhor este fenómeno. À primeira vista, parece que o desenvolvimento da prática folclórica e a presença dos emigrantes naquela altura do ano, são elementos chave para compreender o porquê destes ajuntamentos.

Por fim, o fado mandado. Sobre este último temos poucos dados, fora os vídeos de grupos folclóricos online. Há uns anos atrás, lembro-me de presenciar uma tentativa de reavivar o fado mandado no Paúl (Fundão). Formou-se uma roda, onde um acordeão estava a tocar e o músico também estava a mandar. Algo simples e inclusivo! O fado mandado encontra-se numa zona muito extensa, no centro de Portugal. Aí, temos o livro do Rui Vieira Nery para nos ajudar a entender como o fado se propagou no território e a ligação entre este, a desgarrada e o ato de mandar. Para ilustrar esta associação, temos o exemplo de uma dança à desgarrada incluída no repertório do grupo folclórico de Ílhavo. O grupo criou uma coreografia fixa a partir de diferentes figuras e o mandador desapareceu de cena. 

Numa primeira fase, será necessário ir à descoberta dos ainda mandadores em Portugal…?

A PédeXumbo já juntou muito material ao longo dos anos e o recurso à internet facilita a compreensão do que acontece nos concelhos. Em paralelo, outras entidades fazem um trabalho similar, como as recolhas feitas pelo NEFUP, na zona do Douro Verde. Neste projeto haverá uma componente de trabalho no terreno de investigação, que é sempre necessária, mas a prioridade é outra: potenciar o surgimento de novos mandadores. Para isso, é preciso produzir conteúdos, como a PédeXumbo faz com a coletânea de brochuras “Para Conhecer e Fazer” ou com a edição de livros e filmes. Interessa documentar as danças mandadas, mas também dar ferramentas para se ser mandador.

“De volta aos Bailes Mandados em Portugal” terá uma dimensão teórica para a criação de conteúdos, cuja direção científica será feita por ti, e uma dimensão prática. Como será feita a ponte entre ambas e com quem vamos poder contar para o desenvolvimento deste projeto?

Eu estou a finalizar um doutoramento que junta antropologia, estudos em dança e artes performativas. O meu objeto de estudo é o baile de chamarritas, um baile mandado muito vivo nas ilhas do Triângulo (Faial, Pico e São Jorge), que pertencem ao grupo central dos Açores. Por outro lado, trabalhei na PédeXumbo vários anos e desta experiência conservo a sua dimensão política, no sentido de ter um papel ativo na sociedade civil. Ou seja, a minha preocupação atualmente é como disseminar dados científicos para quem queira saber mais, sem passar por ler artigos em revistas científicas ou assistir a conferências. É um dever garantir que a ciência tenha repercussão na população em geral. Daí o teórico ter que associar-se ao prático. Para garantir isso, não estou sozinha.

O projeto precisa de formadores de norte a sul para ser implementado! Mercedes Prieto, Marisa Barroso e Ana Silvestre são formadoras muito experientes em dança tradicional, duas delas possuem um doutoramento no domínio da educação e da dança/desporto. Também costumam animar bailes, o que as aproxima da função de mandador. Elas organizam um conjunto de pessoas para criar um momento de convívio. 

Para além da distinção teórico-prática temos de voltar à questão política. Um dos objetivos do projeto é dar visibilidade a outra forma de considerar a dança tradicional sem passar apenas pela apresentação do grupo folclórico. Este formato em si não permite manter vivas as práticas expressivas. É preciso de uma prática informal ou ritual em paralelo, ou seja, um contexto para que as danças sejam incorporadas. Uma dança só existe quando é dançada! Para garantir isso, tem que fazer sentido para as pessoas, no seu dia-a-dia. 

Neste projeto, escolhemos propositadamente uma prática comum a todas as regiões de Portugal. Com efeito, parece ser o momento de refletir sobre a regionalização das danças tradicionais, estabelecida durante o Estado Novo. Há dados para confrontar, criticar ou confirmar. É preciso questionar a forma como a própria noção de tradição foi construída ao longo do século XX, em Portugal, e como ou porque é que o folclore se tornou um sinónimo de tradição.

O projeto tem a duração de cerca de 2 anos e estende-se até 2022, com várias fases. Haverá momentos abertos ao público em geral?

O encontro em Reguengos de Monsaraz pretende ser aberto ao público em geral. Talvez através da Plataforma ZOOM, possamos propor uma aula aberta a quem não vive nos concelhos citados. Ainda não fixamos todas as atividades que serão realizadas. 

Também estamos a planear um momento público em cada concelho abrangido pelo projeto, e esperamos que seja aberto ao público geral. 

Que materiais serão produzidos e de que forma serão disponibilizados para consulta?

Ainda estamos na fase de reflexão, mas a ideia é por tudo online para ter o maior acesso possível, à semelhança do que a PédeXumbo tem feito com outras publicações.

Com o primeiro volume dos Cadernos de Dança do Alentejo, temos materiais para a valsa mandada, inclusive vídeos acessíveis na plataforma da Memória Média.

Haverá, em breve, uma brochura sobre a chamarrita do Pico, como já houve uma sobre a valsa mandada. No site da Dança Portuguesa a Gostar Dela Própria, existem alguns registos vídeos de bailes mandados. 

Enquanto a pandemia não permitir ajuntamentos, pretende-se criar conteúdos em vídeo para ensinar a mandar, dando informação simples para iniciantes com figuras, música de suporte e técnicas para articular a música e a dança. 

Também é preciso material escrito para dar informação sobre os contextos nos quais as práticas são vividas. Procura-se marcar entrevistas com mandadores e animadores de bailes. Está planeado um manual de boas práticas para organizar um baile mandado.

Que impacto se pretende que tenha este projeto no futuro dos bailes mandados?

A ideia é capacitar pessoas singulares ou membros de associações para que revitalizem as suas práticas em contexto informal, como o baile. E garantir que o baile mandado possa voltar a ser executado, em contexto bailatório ou ritual. O futuro dos bailes mandados é voltar aos terreiros! E garantir que se ouve sempre mais a voz do povo, contrariando a monopolização imposta pelos seus representantes (políticos ou de outros tipos).

Os grupos folclóricos podem ser bons parceiros neste projeto. Entendemos que há um trabalho a desenvolver durante os ensaios. Como um mandador não repete as mesmas sequências de movimentos, isso permite trabalhar a atenção dos dançarinos. Altera completamente a qualidade dos seus movimentos, melhora a escuta da música, etc… O imprevisto não pode ser considerado como sinónimo de engano ou de perigo. O risco vale a adrenalina que se gera para conseguir executar o que o mandador anuncia.

Uma vez bailei com um grupo folclórico que tinha participado num projeto da PédeXumbo. Um grupo de baile folk tocava e os dançarinos daquele grupo bailavam misturados com o público. Como era uma música tirada do seu repertório, os elementos do grupo estavam à vontade. O que não sabiam, e eu também não, é que o grupo de baile tinha arranjado a música e alterado a sua estrutura. Tinha acrescentado mais uma dupla cantiga/refrão e dobrado o refrão no fim. Depois do número habitual de repetições cantiga/refrão, a maioria dos membros do grupo pararam de bailar e ajoelharam-se, como costumam fazer no fim das suas apresentações. Como a música não parou, levantaram-se e voltaram a dançar. O meu par, que era membro do grupo, não parecia o mesmo depois daquele momento. Já não era o bailador virtuoso, mas sim o bailador atento, que se deixava guiar pela música. Claro que a parte final foi a que mais gostei! Por excelente dançarino que ele fosse, só na parte final fomos verdadeiramente um par a bailar ao som da música, escutando-a com todo o nosso corpo.

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