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“Bailes Mandados em Portugal”, um artigo de Sophie Coquelin para ler no âmbito do projeto «De Volta aos Bailes Mandados em PT»

Associação PédeXumbo (Atualizado em: 31 Maio, 2022 )

“De Volta aos Bailes Mandados em Portugal”  é um projeto da PédeXumbo que procura valorizar a figura do mandador na dança tradicional em Portugal. Com o apoio da Fundação EDP, através do seu Programa Tradições, foram escolhidas quatro práticas expressivas distintas – o Fado Mandado; o Vira, a Chula e a Cana Verde; a Contradança no Baile da Pinha; a Valsa Mandada. A parte prática deste projeto tem estado a decorrer em quatro concelhos de Norte a Sul do país: Lousã, Ponte da Barca, Reguengos de Monsaraz, Sines, com sessões dinamizadas pelas formadoras Ana Silvestre, Marisa Barroso e Mercedes Prieto (ver galerias de fotografias).

Em junho, lançamos o mais recente artigo de Sophie Coquelin, no âmbito deste projeto, que aborda os Bailes Mandados em Portugal, a figura do mandador na dança tradicional e a contradança como género coreográfico Global. Este é ainda o mês em que o concelho das Lajes do Pico (Açores) acolhe o seu primeiro festival dedicado à dança, de 29 de junho a 3 de julho. Entre oficinas de dança e bailes, a programação foca-se nas danças açorianas – chamarritas e bailes de roda – e nas danças do mundo. Uma boa oportunidade para visitar os açores a dançar!

Para saber mais sobre o projeto «De Volta aos Bailes Mandados em Portugal» e ler os artigos completos de Sophie Coquelin devem clicar aqui

Bailes Mandados em Portugal

por Sophie Coquelin

O Projeto «De volta aos Bailes Mandados em Portugal» da Associação PédeXumbo procura valorizar a figura do mandador na dança tradicional em Portugal, com o apoio da Fundação EDP, através do seu Programa Tradições. Foram escolhidas quatro práticas expressivas distintas – o Fado Mandado; o Vira, a Chula e a Cana Verde; a Contradança no Baile da Pinha; a Valsa Mandada – e quatro concelhos de Norte a Sul do país: Lousã, Ponte da Barca, Reguengos de Monsaraz, Sines.

O desenvolvimento de uma oferta formativa em cada concelho está precedido de pesquisa que contextualiza cada prática no respetivo território. Cada um dos artigos apresentados aborda outros temas, associados à dança tradicional.
Com a Contradança no Baile de Pinha, procuramos destacar a ligação entre uma dança e o seu contexto de execução. Neste caso, a Contradança sublinha a dimensão ritual de que se pode revestir o baile e que vai para além da dimensão social que geralmente lhe reconhecemos. Procuramos também refletir sobre as noções de tradicional e popular, mostrando como uma prática coreográfica vista como antiga é executada ao som de música do presente. Com as danças mandadas no Minho – Vira, Chula e Cana Verde – abordamos a questão da folclorização e da patrimonialização do imaterial. E destacamos a obra de Pierre Sanchis sobre as romarias em Portugal, em particular o lugar que a dança tinha no passado. Com a Valsa Mandada introduzimos as danças a par que sucederam, e por vezes se fundiram, com a contradança. Foi este o momento escolhido para mostrar o trabalho que a PédeXumbo tem feito ao longo de quase 15 anos na sua salvaguarda. Por fim, com o Fado Mandado reafirma-se a ligação forte entre música e dança quando estamos a falar do contexto bailatório. Além disso, procuramos demonstrar como as práticas expressivas evoluem ao longo do tempo e do espaço. O conceito de labilidade é, a nosso ver, central para descrever o que se entende por tradição, algo que muda no tempo, mas que podemos reconhecer como idêntico.

Precedendo os artigos dedicados a cada uma das práticas, introduzimos alguns dados gerais sobre a figura do mandador na dança tradicional.

A FIGURA DO MANDADOR NA DANÇA TRADICIONAL

Um mandador é alguém que indica, com o recurso da sua própria voz, o que os bailadores devem executar. Eis dois elementos essenciais: a voz e o movimento. As indicações passam pelo recurso à linguagem, mas podem incluir alguns sons sem significado (apito, grito). Tal pressupõe que os bailadores detêm um conhecimento prévio do que cada expressão/som anunciado significa ao nível do movimento. Existem vários graus de codificação possíveis. Nalguns casos o “mando” ou “marcação” é literal, como por exemplo “Vira” ou “Mãos ao ar”, noutros o sentido não é diretamente acessível, tal como “Desmancha a mulher à esquerda” ou “Quebra o torreão”.

A verdade é que a figura do mandador varia consoante a prática coreográfica que integra. Por exemplo, a ordem dos mandos pode ser a priori fixa ou ser indefinida. No primeiro caso, o mandador auxilia a memória dos bailadores para não haver engano na coreografia. No segundo caso, assistimos a uma negociação entre previsibilidade e imprevisibilidade. Os bailadores precisam estar atentos para saber o que terão de realizar a seguir. Em termos sociais, podemos falar em baile mandado mais inclusivo ou mais exclusivo. Em alguns casos, temos uma dança coletiva em que todos podem dançar, noutros, só quem sabe o significado dos mandos é que pode dançar. O carácter exclusivo pode ir longe: tal como explicou o Senhor Venâncio, quem se enganava na Valsa Mandada, tinha de sair da roda imediatamente. Esta prática beneficia os residentes sobre os forasteiros.

O baile mandado pode ser o lugar para a invenção de mandos ou a criação de novas sequências coreográficas. Ainda assim, existe sempre um enquadramento com convenções partilhadas implicitamente. De resto, qualquer tipo de dança implica um conjunto de normas que organiza os bailadores entre eles. No caso da Contradança no Alentejo, a sucessão de figuras coreográficas pressupõe que cada bailador regressa à sua posição inicial no grupo de bailadores, antes de iniciar uma nova figura. As normas também podem influenciar a altura em que se introduz um novo mando. Na Chamarrita (Açores), o mandador não pode escolher um mando à sorte, mas em cada momento tem sempre a possibilidade de escolher entre vários mandos. Os constrangimentos resultam da posição na qual se encontram os bailadores e da figura imediatamente antecedente.

Entende-se portanto que o mandador precisa ter um conhecimento consolidado da prática corporal em questão. Deve saber antecipar, uma vez que o anúncio da figura precede a sua execução. Deve ter uma boa projeção de voz para ser entendido pelos bailadores, mas também deve saber comunicar, cativar e animar o grupo de bailadores. Não se trata apenas de dar ordens ou relembrar algo já conhecido. A performance vocal do mandador pode ainda implicar talentos musicais e poéticos, como acontece com frequência no Baile Mandado no Algarve, onde o mandador quase parece um cantor de hip-hop (Sugerimos ouvir o  mandador algarvio Henrique Bernardo Ramos (1902-1977)). E talvez não seja por acaso que ele não está junto dos bailadores, mas ao lado dos tocadores. Em Portugal, é caso único, já que por norma o mandador é ao mesmo tempo bailador.

Como se vê, não é possível apresentar apenas um perfil de mandador. Para entender como a figura do mandador surge, vamos introduzir alguns dados sobre a contradança. Para além de ser este o primeiro género coreográfico à escala global, é no seu seio que a referência ao mandador aparece primeiro na historia da dança social europeia.

A CONTRADANÇA COMO GÉNERO COREOGRÁFICO GLOBAL

Definir o que é uma contradança é tarefa árdua. Pensando na questão da origem, existem duas fontes distintas (a corte inglesa e a corte francesa) e uma multitude de apropriações e adaptações em todo o mundo, uma vez que este género coreográfico se caracteriza por um conjunto de danças inventadas ou adaptadas ao longo de 250 anos (1650-1900). A título de exemplo, na página wikipedia da contradança na Escócia fala-se em 15000 danças distintas. Este fenómeno atravessa todas as classes sociais, da aristocracia aos escravos em tempos coloniais (Khatile, 2005), dos urbanos aos rurais (Guilcher, 2004). A difusão nos cinco continentes deve ser entendida à luz da mobilidade acrescida que se fez sentir nos séculos XVIII e XIX. Existem movimentos migratórios importantes, em particular da Europa para as Américas, em que as pessoas levam as suas vivências para o local de chegada. Por outro lado, as elites viajam e seguem a moda e etiqueta comportamental então ditada pela cultura francesa. Os empregados domésticos assistem aos encontros mundanos, ficando a conhecer estas novas práticas expressivas e difundindo-as. Investigar a contradança é também complicado porque existem numerosas formas de nomear este género. Além da sua tradução – country dance, contredanse, contra dancing – existem muitos outros termos usados, tal como quadrille, cotillon, square dancing, ceilidh dance, Scottish country dance, Irish set dance. Esta variação não reflete apenas tradições nacionais. Por exemplo, num mesmo país podem ser usados vários termos, como acontece em Portugal (contradança e quadrilha).

Quanto à performance em si, Guilcher (2004) define este género coreográfico a partir de duas características: o facto de privilegiar as relações interpessoais entre os bailadores e o facto de valorizar as deslocações em detrimento dos passos. Traduzindo esta ideia numa imagem, podemos compará-la a uma visão caleidoscópica. Observando os pares a dançar de um ponto de vista omnisciente, aproxima-se de um objeto geométrico composto, em 3D e em movimento, implicando jogos de simetria e alternância entre curvas, linhas, círculos, quadrados, espirais, etc. Aprofundar a caracterização deste género torna-se quase impossível. De facto, existe bastante variação quer na formação espacial (duas linhas, cortejos, roda de pares, roda dupla, quadrilha, etc.), quer nos tipos de passo.

No que diz respeito à adaptação ou invenção de danças, importa realçar a figura do mestre de dança. Este ensina as coreografias às elites, realiza a notação gráfica de cada dança e publica tudo sob a forma de tratado ou manual de dança. Mas o mais importante é que o mestre de dança também inventa novas danças. Para isso, tem acesso a um conjunto de figuras coreográficas que podem ser combinadas de diferentes formas. Pode inventar novas figuras, simplificar ou complexificar antigas contradanças, ou criar novas sequências de figuras; alterar o tipo de música associado a uma contradança; ou ainda introduzir adereços (lenço, arcos, flores) para enfeitar a performance. A inovação parece ser constante. Na sua tese dedicada à contredanse, Guilcher (2004) mostra como se passa da contredanse à quadrille por alterações sucessivas, através de processos de fixação, simplificação e encurtamento da coreografia. Hoje a quadrille francesa faz referência à seleção de cinco contradanças distintas, cada uma com uma sequência de figuras específicas.

A nível musical, a contradança não possui limitações, senão a de garantir que a estrutura rítmica e métrica seja adequada a determinada dança. Assim, o ritmo da valsa pode ser usado para dançar uma contradança. A título de exemplo, na Escócia, existem três tipos distintos de contradanças consoante o acompanhamento musical (reel, strathpey e jig).

As descrições que incidem sobre a contradança fazem menção da existência de um mandador a partir do fim do século XVIII. Guilcher (2004) fala da criação de pot-pourris, danças que juntam várias contradanças e figuras já conhecidas, sendo que a sucessão destas é definida por um par que lidera o grupo de bailadores. Aqui parece que o par exemplifica mais do que anuncia os passos a executar. Porém, podemos imaginar que os mestres de dança recorriam à verbalização das figuras durante as aulas que ministravam. Assim, não é descabido pensar que um bailador terá também a possibilidade de anunciar verbalmente as figuras e não só exemplifica-las. A pergunta seguinte é: como ou porque é que esta verbalização sai do contexto formativo para o baile? A verbalização e consequente criação da figura do mandador surge, a nosso ver, aquando da multiplicação e complexificação das coreografias, tornando-se difícil decorar as sequências de figuras de cada uma das danças. Neste contexto, o mandador tem como função auxiliar a memória dos bailadores, já que a coreografia é fixa. Num movimento inverso, a simplificação das coreografias pode levar ao desaparecimento do mandador, tal como o analisou Sparling (2018) numa região do Canadá.

Temos aqui duas valências distintas, o mandador que ajuda a lembrar uma coreografia predeterminada e o mandador que cria uma coreografia no momento da performance, a partir do conjunto de figuras já conhecidas. A nosso ver, esta segunda valência pode ser associada ao desenvolvimento da primeira. Na primeira situação, trata-se de respeitar algo já definido e mostrar que se consegue executar uma determinada coreografia. Na segunda situação, o bailador deve demonstrar que domina as convenções associadas à contradança. O desafio torna-se maior face à indeterminação.

Com estas duas figuras de mandador, a dinâmica na pista de dança varia. Na primeira situação, a criatividade individual pode ter maior expressão e a dinâmica com o par é importante. Nota-se neste canal youtube onde se vê várias Square Dance nos Estados Unidos, e mais ainda no vídeo deste Contra Dancing. Os bailadores introduzem variações individuais e ao mesmo tempo respeitam a coreografia. Na segunda situação, a criatividade individual também existe, mas é mais condicionada. Aqui o desafio é outro, e as atenções estão mais focadas no mandador do que no seu par. A título de exemplos, esta variação individual surge com a introdução de pequenas piruetas na Chamarrita picoense e com a introdução da técnica sapateada na Valsa Mandada.

Antes de acabar, precisamos de esclarecer a ligação entre a contradança enquanto género coreográfico e as quatro práticas expressivas deste projeto. No caso da Contradança no Baile da Pinha, basta a homonímia. Para o Fado Mandado, reconhecemos as figuras da contradança, tal como o cesto, os arquinhos, a figura do oito, etc. No caso da Valsa Mandada, a ligação parece menor. No entanto, a contradança coabita com as danças a par ao longo do século XIX. Além disso, existem registos sobre a inserção da valsa na contradança. Neste caso, a contradança corresponde ao evento em si, uma noite com a sucessão de determinadas danças, selecionada por um mestre de sala. A nosso ver, a Valsa Mandada é uma combinação entre uma valsa, enquanto dança a par, e princípios de organização coletiva da contradança. Por fim, para as danças mandadas no Minho, mantém-se a ideia de partilhar os princípios de organização coletiva da contradança, baseada numa dinâmica de grupo e com o par. Porém, para entender melhor a forma como estas danças possuem alguma influencia da contradança, é preciso olhar para todo o repertório bailado naquela região. Nos Viras, Chulas e Canas Verdes executadas pelos grupos folclóricos sobressaem uma variedade de formações espaciais, entre outras a quadrilha, as duas linhas, as rodas de pares, etc, onde reconhecemos as tais figuras da contradança, tal como referidas para o Fado Mandado.

Podíamos abrir esta listagem a outras danças mandadas em Portugal. As figuras da contradança e os princípios de organização coletiva estão presentes no Baile Mandado algarvio, tal como nos Bailes Regionais, Chamarritas nos Açores e, na zona do Douro Verde, nas danças: Contradança, Quadrilha e Baile Mandado (Queirós et al, 2021). No caso desta Contradança bailada em Cinfães, a formação espacial em quadrado, com dois pares para cada lado, encontra-se em numerosas danças, seja em Cabo Verde (Contradança), nos Estados Unidos (Square Dance), como podemos encontrar no livro The English Dancing Master publicado por John Playford em 1651.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Um baile mandado pressupõe que haja um grupo de bailadores animados para dançarem juntos seguindo a voz de um mandador. Para garantir o funcionamento do grupo, o mandador deve ter um conhecimento aprofundado da dança em questão e, de uma certa forma, deve aceitar entrar neste personagem que muitos olham com respeito. Em algumas situações, terá de aceitar ser desafiado por outros mandadores, aumentando a teatralidade deste tipo de baile.

Sinal dos tempos, a figura do mandador, inicialmente apenas do género masculino, hoje está a ser incorporada por mulheres em Portugal. Esperemos que este projeto proporcione a oportunidade, a quem o desejar, de experimentar realizar o papel de mandador do baile.

Bibliografia
Guilcher, J. M.(2004). La contredanse : un tournant dans l’histoire française de la danse. Bruxelas: Centre National de la Danse.
Khatile, D. (2005). Anthropologie de la contredanse à la Martinique. Tese de doutoramento não publicada, Universidade Paris VIII.
Queirós, H., Monteiro, L. & Leite Castro, D. (2021). Contradanças e quadrilhas durienses. Porto: U.Porto Press.
Sparling, H. (2018). Squaring off: The forgotten caller in Cape Breton Square dancing. Yearbook for Traditional Music, 50, 165-186.

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